Assalto ao Bacen

Régis estava todo proza no elevador naquele fim de tarde. Olhar malicioso, seguro. Os colegas do trabalho já haviam notado aquele humor diferente no eterno novado. Nem quando foi chamado para conversar com o chefe o desenho se desfez no rosto. Pelo contrário, voltara ainda mais saliente. A curiosidade faria óbito se um dos colegas não tomasse alguma atitude. Veio na baia convidá-lo para um cafezinho. Na copa ninguém se preocupou em disfarçar e foram inquirindo o rapaz. “Nada, ué”, respondia ele. Uma colega que ficara de sentinela na entrada da copa insistiu com mais veemência, mas o nada continuou na resposta de uma cara sacana, beirando insuportável.

Claro que tinha algo, o chefe não chamava para ficar de papo. Era cobrança, e cobrança justa de um cara que há dias – na verdade semanas – não mostrava qualquer comprometimento. Mas ele saiu melhor do que entrou. Como pode? Tem histórias de colegas saírem direto para o RH pedir as contas; outros soluçando o resto do dia; outros ainda portando indiferença, mas por efeito de remédios, saber-se-ia mais tarde. Talvez fosse esse o caso.

Agora ele distribuía aquele meio sorriso, acompanhado de olhos preguiçosos, aos passageiros do elevador. Encarava-os sem discrição, de fazer ficar sem jeito. Um cara de óculos, tipo nerd, o ignorou. Já a jovem moça à sua frente olhava fixo pro chão, evitando o assédio de um olhar quase tão atrevido que dava de sentir. Já à mulher às costas deu apenas uma olhada pelo espelho da parede do elevador. Breve pensamento acerca do sobrepeso dela o fizeram sorrir bem de leve. “Ao menos ela está me empurrando pra cima dessa coisinha linda aqui”, pensou. Encarou os demais rostos antes que o elevador concluísse a viagem.

Na Galeria dos Estados acomodou-se em um banco desses de praça posicionado bem no centro do corredor e concentrou-se no celular, vez ou outra tendo de responder ao aceno de conhecidos indo pegar o metrô. 15 minutos e o fluxo caíra bastante. Pulou do banco, sacou uma chave do bolso e destravou a porta de aço. Encostou na parede ao lado da porta e voltou ao celular. Respondeu boa-noite a uma colega do trabalho e aguardou ela distanciar-se para enrolar a porta o suficiente para entrar meio agachado, fechando-a em seguida.

Em meio ao que restou de uma outrora loja de roupas, escorado no balcão do caixa, motivado pelo silêncio, permitiu-se viajar nos pensamentos. Régis não tinha problemas cardíacos, mas quase infartou com as duas fortes pancadas na porta de aço.

– Quem?

– Mundinho.

– Cagaço, porra! – reclamou, enquanto subia a porta. E ficou sem ação ao perceber que o rapaz entrava estava acompanhado de uma moça. Régis olhou para ela, que disse um oi, e voltou para o Mundinho.

– Sandra, meu crush – explicou. Régis continuou questionando com o olhar.

– Não esquenta, ela é gente boa.

– Porra, velho! Como assim “é gente boa”!

– Vocês vão mesmo assaltar o Banco Central? – perguntou sem conseguir disfarçar muito a zombaria. Régis, olhos arregalados e boca aberta (não dava para dizer quem se destacava mais) só encarava Mundinho, cobrava inconformado a traição. Insistindo sobre a fidelidade da garota, Mundinho foi até o balcão do caixa e ajudou ela sentar sobre o móvel, depois acomodou-se em outro já que o seu peso desafiara a resistência do caixa noutra oportunidade.

Régis ficou perto da porta, olhando para ele, para ela, para ele novamente, para ela, sem dizer nada. Dizer o que numa hora daquelas? Não teve muito no que pensar. Mais duas pancadas na porta, novo cagaço.

– Aaaai, caraaalhooo!

– Abre aê.

– Quem é, porra! Tem que dizer quem é!

– É o Cássio. Abre aí – interveio Mundinho.

– Eu sei que é a droga do Cássio, mas tem que dizer quem é! Todo mundo tem que dizer quem é, porra, senão vira bagunça!

– Véi, vai abrir ou não?

A raiva fez Régis puxar a porta com força, fazendo abrir por completo.

– Merda! Olha o que vocês fazem eu fazer! – reclamava Régis, enquanto tentava puxar a porta de volta. Pediu ajuda do recém-chegado, mas a porta enguiçou. Mundinho perguntou se a reunião do assalto aconteceria mesmo assim, com a porta escancarada.

– Xxxxi, cala a boca, porra! – ordenou o líder, dando pulinhos, não para puxar a porta, mas por raiva. Sandra era uma espectadora divertindo-se. Só depois que Mundinho ofereceu ajuda e a porta foi fechada a reunião foi iniciada pelo Régis.

– Chegou a hora, senhores.

– Uai, não vai ser amanhã? – indagou surpreso o Mundinho.

– É modo de dizer, pô. Fecha a boca – disse Cássio. Sandra sorria. Régis agradeceu a intervenção e continuou:

– Então, está CHEGANDO a hora. Amanhã, às oito, cada um na sua posição. Ninguém pode atrasar. Eu e o Cássio no estacionamento do Bacen, Mundinho no aeroporto. Vamos ajustar os relógios agora para ninguém atrasar. Tudo tem que funcionar perfeitamente, senão é cadeia – disse Régis, conferindo a hora no celular e ajustando no relógio de pulso. Percebeu que os outros dois não se movimentaram.

– Cadê os relógios?

– Esqueci – respondeu Cássio.

– Eu não tenho – emendou Mundinho.

– Ah, tão de brincadeira! Toda reunião a gente fala: os relógios, não esqueçam os relógios. Caralho, pô. Que merda! Mundinho, tem que ter relógio acertado amanhã! E Cássio, como tu foi esquecer… tendo esse nome?

– É de outra marca – justificou o esquecido. Sandra não se aguentava.

– Tá. Beleza. Recapitulando: eu e o Cássio entramos pelos fundos do Bacen, pegamos a pepita. Se não acharmos, pegamos o que der de dinheiro e subimos até o terraço. Mundinho chega com o helicóptero e resgata a gente. Vamos pra casa dos tios do Mundinho na praia de Taquari, na Bahia, e de lá escolhemos um destino para ficar até a poeira baixar. Conseguiu a chave?

– Ainda não.

– E como a gente vai entrar?

– Eu mandei um zape pra tia ontem, mas ela perguntou se eu ia sozinho, quando ia… Meio que desconfiou.

– Mora onde essa tua tia?

– Valença, acho. É na Bahia mesmo.

– Tá, e a gente ia pegar essa chave como, mesmo? – quis saber Cássio.

– Pensei em pousar lá nela antes de seguir pa praia.

– Mundinho, pelamordideus! Ideia de girico! E tem lugar pra pousar? A tua tia tem heliporto, por acaso? Ou vamos bater nos fios de luz e morrer energizados? O que seria melhor do que ser preso.

– Nada, pô. Chegando em casa vejo certinho onde ela mora.

– Contamos com isso. Vê se não vacila.

E seguiram cada um para sua morada, após a curta reunião.

No dia seguinte Régis foi trabalhar com a leveza de quem acabara de conquistar a aposentadoria. Nem aguardou o fim da jornada, saiu às 17 horas sem dar satisfação a ninguém, nem ao chefe, tampouco ao RH. Afinal o que era abandono de trabalho comparado a grande pepita Canaã?

Faltando 25 minutos para as 8 da noite lá estava Régis no metrô, pela última vez, pensava. Tornar-se-ia criminoso procurado daí a poucos minutos e ninguém suspeitava. As poucas pessoas no metrô não faziam ideia que o magrelo encostado junto a uma das portas estava prestes a assaltar nada menos que o Banco Central do Brasil. Do que mais seria capaz? Sentia-se poderoso, ninguém ousaria desafiá-lo. Aquela expressão esnobe do dia anterior voltou a estampar o rosto. Encarou o rapaz de barba e cabelos bem feitos, vestindo calças verdes e camisa justa, encostado na parede logo à frente. Buscou uma vítima mais desafiadora. Achou um cara grande, sem dúvida frequentador de academia, mas este não olhava. Faltava uma viradinha de rosto. “Anda, otário! Vai encarar, é?”, mentalizava Régis. “Frouxo”, concluiu. Voltou para o barbadinho da frente que, percebendo a encarada, não se intimidou. Pelo contrário, parece ter relaxado e, numa requebrada de cintura, cruzou as pernas e manteve-se fixo no futuro criminoso. E sorriu e mexeu atrás da orelha. A discreta passada de língua nos lábios deixou Régis confuso, a ponto de abandonar o duelo e voltar ao grandão que, desta vez, percebeu de pronto. Ignorou uma vez, duas, mas parece ter percebido o desafio e respondeu um “qualé” sem falar, só movendo a cabeça raspada. Régis respondia: “não sabe com quem tá se metendo, zé ruela”, também sem falar. Só que o zé ruela saiu pelo movimento dos lábios do Régis.

Na estação 102 Sul o corpo de segurança do metrô fora acionado. Os dois agentes desceram a escadaria, mãos prontas a tirar os cacetetes, enquanto buscavam o foco. Na plataforma um brutamontes segurava um magrelo pelo colarinho, cobrando “fala agora, fala agora, covarde”. O magrelo lutava para livrar-se daquelas mãos quase biônicas enquanto um rapaz de calças verdes pedia desesperadamente: “não bate nele, não bate nele”.

A confusão no metrô fez Régis atrasar para o compromisso. No entanto, ao correr para não ser alcançado pelo grandão, chegou pontualmente às 8 horas, tal como planejado. Sequer comemorou pois Cássio não estava lá. Olhou em direção ao ponto de ônibus, de onde ele provavelmente viria. Depois para as outras direções. Nada. Voltou ao ponto e foi varrendo em sentido horário até avistar o comparsa em mangas longas pretas com uma mochila nas costas aproximando-se calmamente. Assim que chegou perto o suficiente Régis disparou:

– Qual foi a parte de “chegar às 8 em ponto” tu não entendeu”?

– Essa parada tua aí de usar relógio. Tava com a pilha fraca mas os ponteiro ainda gira, olha só. Atrasou. Sorte que percebi em tempo.

– Ainda bem que planejei tudo com folga. Só espero que o Mundinho já esteja no helicóptero, e sem namorada. Porra, já pensou, ter que dividir com ela?

– Ele mandou mensagem. Já tá lá perto do aeroporto, onde tem os táxi aéreo.

– Vocês tão de celular? Putaquipariu, véio!

– Sem celular não dá não, fio! Quer fazer operação dessas sem tecnologia? É pedir cadeia.

– Trouxe as ferramentas?

– Alicate, martelo, cortador de vidro e arame, se precisar fazer chave.

– Pra que martelo? E o pé-de-cabra?

– Não cabe na mochila. Por isso trouxe o martelo.

– Sem pé-de-cabra, mas trouxe o celular.

– No busão ninguém repara no celular. Já num pé-de-cabra…

A dupla caminhou sorrateiramente até a parte de trás do Bacen, no piso térreo, nível da entrada principal. Naturalmente estava fechado e com guarda, impossível chegar perto, quanto mais tocar na porta ou arriar a mochila, sacar um cortador de vidros e começar a desenhar – sem contar a espessura do vidro, com certeza laminado.

Mantiveram uns 20 metros de distância e passaram a analisar. Concluíram que o ideal talvez fosse acessar o piso superior, uns 10 metros acima. Cochicharam de dar a volta para conferir a entrada principal. Cássio advertiu que o guarda olhava para eles de dentro do prédio, através dos vidros.

– Droga. Abortar missão. Abortar missão – declarou Régis, saindo junto de Cássio a passos ligeiros, fazendo o caminho de volta e especulando sobre o provável destino de Mundinho. – Ele vai pousar no heliporto do Bacen, vai ser preso, vai dedurar a gente… Tamo ferrado. Pobre e ferrado!

– Já avisei aqui pra ele. Vamo se encontrar no QG – informou Cássio. Régis só balançava a cabeça, reprovando.

Na antiga loja aguardaram um pouco até a chegada de Mundinho, que os encontrou lanchando mini-sanduíches com refrigerantes (a mãe de Cássio preparara um lanche com bebida para cada um, mesmo sem ninguém ter pedido). Os dois elogiavam a refeição enquanto Régis permanecia quieto e cabisbaixo, pensativo, às vezes esquecendo de mastigar.

– Ânimo, cara! Ninguém foi pego – disse Cássio. Régis pensou um pouco mais e quebrou o silêncio:

– Mundinho, e lá no helicóptero, como foi?

– Tinha a entrada, mas eu já sabia que não ia dar, que tem cancela, guarda… Daí eu estacionei mais pra baixo na marginal e fui até uma cerca de tela, mas não consegui partir o arame – explicou, mostrando o pequeno alicate bico fino que trazia no bolso da calça. – Eu já ia até mandar mensagem pro Cássio dizendo pra cancelar.

Régis baixou a cabeça, esquecia de mastigar. Estava pensando. Alguns segundos e dirigiu-se ao Mundinho.

– Uma pergunta: você pilota helicópteros?

– Não deve ser muito diferente de carro.

– Mas já pilotou? – reforçou Cássio.

– Não.

– E como tu ia fazer pra vir resgatar a gente?

– Véio, o difícil é chegar no negócio, que eu não consegui. Depois é girar a chave e correr pro abraço. Putz, a chave! Como é que eu ia ligar sem ter a chave, né… Temos que pensar melhor nessa parte: cortar a cerca, dar um jeito de pegar a chave e só então ir pro helicóptero.

Régis e Cássio se entreolharam, espantados.

– A operação já nasceu condenada! – decretou Cássio.

– Sim. Sem chave, sem helicóptero – concordou Régis, que continuou: – Tenho que melhorar o plano e vou começar hoje mesmo. Mas por ora é continuar naquela bosta de trabalho, até pra não levantar suspeitas. Fazer o quê…

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

Um comentário em “Assalto ao Bacen

  1. Caramba! Que maravilha! Meia dúzia de fudidos covardinhos e mal preparados se metendo (aliás, querendo se meter) nessa aventura de roubar banco… Só vi agora, mês inteiro sem ler e-mails… Régis, digo, a consciência xingando… coitada da sueliii! Mas, muito bom esse texto. Abraço, desculpa a demora! Deus te abençoe e te ilumine para continuares a escrever lindezas assim.

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