Missão Cumprida

Café expresso num dia chuvoso. Boa pedida, seja num fim-de-semana ou no meio da tarde de uma segunda-feira, como era o caso. Mas Gabriel não parecia estar aproveitando o momento. Não completamente, como outros o faziam ao seu redor, durante o intervalo vespertino do trabalho. Talvez porque aquelas pessoas levantariam daí uns minutos e seguiriam para seus escritórios enquanto ele podia ficar quanto tempo quisesse. Liberdade indesejável, pois queria trabalhar e estava sem trabalho. A exoneração da polícia civil distrital dera-lhe essa vantagem, de ser o patrão de si mesmo. Porém a conta havia chegado.

Quando tomou tão radical decisão, de deixar uma profissão por tantos perseguida em concorridíssimos concursos públicos, esperava não ficar muito tempo inativo. Acreditava pegar ao menos um ou dois casos no primeiro mês, talvez o mesmo no segundo até ser necessário selecionar os casos para não sobrecarregar. Porém o segundo mês findava e seu currículo de detetive particular continuava em branco. Junto àquele expresso começava a avaliar se tomara a decisão correta, afinal os boletos chegariam, não importava a saúde de sua conta bancária.

O celular, abandonado por alguns minutos sobre a mesa da lanchonete, voltou à mão. Repetiu a mesma conferência nas redes sociais, já perdendo as esperanças. Nenhum anúncio recebera atenção. Já a caixa de e-mails estava bem movimentada, mas tratava-se de ofertas de descontos incríveis em sites especializados em espionagem; nada que ajudasse.

Com a certeza de mais um dia abreviado, levantou e foi até o caixa pagar o café. Depois foi até o estacionamento da Biblioteca Nacional pegar o carro – preferia ter de andar um bocado a deixar o carro com cuidadores. Só daria falta do guarda-chuvas quando voltasse a chover. Chegando lá acomodou-se no assento e fixou os olhos na caixa de papelão ao lado, no carona. Ainda tinha milhares de panfletos a serem distribuídos, numa estratégia que começava a se mostrar equivocada. Só não achava pior porque, com os panfletos, via-se obrigado a sair de casa e ter contato com a vida fora do apartamento. E foi daquele jeito, melancólico, que Gabriel seguiu rumo a Águas Claras.

Já passava pelo Lúcio Costa quando o celular tocou. Prefixo 61, número desconhecido. Bem provável fosse mais um telemarketing tentando vender algo de que não precisava. Ia recusar como sempre, mas veio na mente um aviso. Estava em plena campanha por trabalho e muitas pessoas ainda usavam telefone em vez das redes sociais para se comunicar. Parou com o pisca-alerta ligado às margens da EPTG e respondeu à chamada. Uma voz feminina identificou-se Cláudia e perguntou se ele estava disponível para um caso.

Com esforço Gabriel guardou para si a euforia e tratou de falar com a calma de um veterano. Sentia na voz da mulher a insegurança que, alguns casos depois, perceberia normal à maioria dos clientes cujas demandas tinham cunho bem pessoal. Após encerrar a chamada teve de pegar a pista marginal e seguir pela Estrutural de volta ao Plano Piloto, onde estacionaria mais uma vez na Biblioteca Nacional. Ali aguardaria sua possível primeira cliente.

Viu quando um Honda Civic preto entrou no estacionamento e passou pela frente do seu Fiat Mille branco. A silhueta da motorista, atenta a qualquer vaga para estacionar, não o notou. Ele desembarcou e ficou observando por cima dos carros. O Civic estacionou não muito longe, uns 50 metros. A mulher, morena de cabelos bem loiros e ondulados, desceu já buscando em redor onde estaria o detetive, enquanto pegava uma bolsa e, de dentro, o celular. Olhou mais uma vez e não viu Gabriel acenando com a mão. Posicionou o celular ao ouvido, mas o rapaz ignorou a chamada sem parar de gesticular, prevendo que ela o acharia logo. Previsão confirmada alguns segundos depois.

– Gabriel?

– Sim. Dona Cláudia, né?

– Só Cláudia.

Os dois entraram no Mille e fecharam as portas, como combinado durante a ligação telefônica. Gabriel chegou a ensaiar a primeira pergunta da entrevista, mas Cláudia foi mais rápida. Queria saber da experiência do detetive e emendou pedindo referências. Não foi lá uma surpresa, pois ele teve tempo de preparar-se para o momento. Explicou que seria seu primeiro caso, respondendo às duas perguntas da mulher. Ela diria algo mas Gabriel pediu aguardar, pois um homem vinha na direção deles. A tensão dominou o detetive compreensivelmente. Um desconhecido vinha ao seu encontro no momento em que estava acompanhado de outra desconhecida. O primeiro alívio veio quando Cláudia perguntou se ele conhecia o homem. Gabriel respondeu e pediu não se preocupar. O homem calvo de camisa branca listrada estava bem perto e olhando direto para ele. Não havia saliência de arma sob a camisa, a menos que estivesse atrás. Aliviou um pouco a tensão lembrar que estavam em um lugar público, inclusive com uma pequena fila de táxis ali perto aguardando corridas. Nos últimos passos o homem levantou o polegar e pelos lábios foi possível inferir um “tudo bem?”.

Gabriel baixou o vidro.

– Pois não?

– Esse Mille é seu?

A negativa ao interesse de venda abreviou a conversa e Gabriel pôde voltar a atenção à possível cliente.

Talvez a abordagem daquele estranho e a falta de experiência de Gabriel tenham somado pontos negativos, fazendo a mulher pedir desculpas e abrir a porta do carro, não dando importância aos pedidos quase desesperados de reconsideração. Ele desceu do carro e foi atrás de Cláudia.

– Sou ex-policial. Fui investigador por quase 6 anos. Tenho experiência de sobra em investigação.

– Por que disse que não tinha experiência?

– Porque a senhora… Digo, você, perguntou se eu tinha experiência como detetive particular, e não como policial.

– Não, daí tudo bem. Achei que era free lance. Daí não ia dar não.

– Então posso retificar a segunda resposta. Meus ex-colegas são minhas referências, se quiser conferir.

Combinaram se reencontrar no dia seguinte no mesmo local. Tempo suficiente para a cliente checar a veracidade das informações dadas por Gabriel.

Na tarde de terça-feira, por volta das 15 horas, Cláudia estava pronta para conversar sobre o caso, mas teve de aguardar. Um senhor de idade, cabelos brancos e celular à mão vinha em direção a eles.

– Não é possível! – pensou alto Gabriel.

– É seu?

– É, mas não está à venda – respondeu, fazendo o homem voltar pelo mesmo trajeto.

– Menino! Com esse carro não vai dar certo não! Troca logo – observou Cláudia. Gabriel concordou. Finalmente ele tomaria conhecimento do que seria o seu primeiro caso.

Sua primeira cliente era casada há quase quarenta anos com Demétrio, dentista na Marinha em Brasília, enquanto ela atuava como assessora no Tribunal de Contas. Bastante conservadores, criaram as duas filhas e o filho naquele molde. Disse Cláudia que Demétrio manteve Lisa e Malu sob vigilância até se casarem, enquanto estimulava Duda a namorar as colegas do colégio e reprimia, desde uma peça de roupa mais justa até um cruzar de pernas julgado inapropriado a um homem. Gabriel punha em ação uma das lições do treinamento de detetive, qual seja conhecer bem o cliente.

O motivo da contratação era uma mudança de comportamento de Demétrio. Era difícil vê-lo sair de casa sem companhia de alguém. Quando o fazia era para jogar bilhar no Clube da Marinha, coisa não muito apreciada por mais ninguém da família. Nas demais ocasiões enchia o saco para ir, nas palavras dela, raramente deixando-a para trás. No entanto há alguns meses o marido passou a sair mais vezes sozinho. Ela achou até bom não ter de inventar motivos para ficar em casa, mas as saídas, sempre noturnas, viraram rotina semanal, com motivos sempre diversos. Fazer pequenas compras em mercados abertos 24 horas foi a primeira justificativa. Era mais tranquilo porque não tinha filas, dizia ele. Só que a mulher certa vez quis ir junto e ele pareceu não saber ao cento aonde queria ir. Gostava de procurar novos estabelecimentos, justificou. E de lá saíram com uma garrafa de vinho, duas carteiras de cigarro e alguns itens de higiene pessoal. Rodar quilômetros e quilômetros para comprar tão pouco não foi a única coisa estranha. No dia seguinte Demétrio avisou que estava saindo novamente, e novamente sem convidar Cláudia. “Encontrar um amigo?”, perguntou-se a mulher. Ela conhecia os amigos dele e ele os dela. Resolveu que não perguntaria do tal, aguardaria o homem detalhar o encontro, o que não aconteceu.

Na semana seguinte, quarta-feira, a saída foi para fazer aquelas compras de mercado; na outra semana, na quinta, tornou a encontrar o amigo misterioso. Ela pediu para acompanhá-lo, mas ouviu que seria deselegante chegar com companhia sem prévio aviso. O nome pelo menos foi revelado: Victor, antigo colega de Marinha no Rio de Janeiro, cuja amizade brotou quando ele também lá servia. Quase toda semana o tal Victor precisava vir à Brasília, então Demétrio aproveitava encontrar o amigo jamais mencionado durante a vida juntos.

Quando perguntada por mais atitudes julgadas estranhas, Cláudia mencionou que o marido sempre fora homofóbico, não deixando de tecer comentários ao avistar qualquer manifestação, mesmo quando não era o caso. Ela recordou quando o rosa ditou a moda anos atrás, Demétrio não se conformava. Nem o Outubro Rosa foi poupado. E, de repente, ele passou a ignorar tudo. Não só as cores, mas as manifestações de fato. Passou a cumprimentar os casais que por eles passavam durante as caminhadas no Parque da Cidade, para total surpresa dela.

O novato já tinha o bastante. Combinaram o seguinte: Cláudia buscaria prever quando Demétrio sairia novamente e informaria Gabriel para ele fazer campana e segui-lo. A ação seria na quarta ou na quinta da outra semana, provavelmente. Na quarta, às 18:30 horas, o detetive estacionou não muito próximo da casa deles no Parkway do aeroporto. Aguardou mais de três horas até receber mensagem de Cláudia avisando que não aconteceria. Na quinta, nova campana, mesmo horário. Desta vez a mensagem da cliente dizia para se preparar: o alvo estava saindo.

A adrenalina fez lembrar as primeiras semanas como investigador de polícia. Na primeira vez que precisou seguir um suspeito fez tudo errado, perdendo-o de vista. Mas outras oportunidades vieram e ele aprendeu como seguir. Sentia-se confiante para a missão, sabia o que fazer. Colava na traseira do Honda CRV quando o trânsito apertava; guardava distância e mudava de faixa quando tranquilo. E foi seguindo o veículo prata pela EPIA Sul até o viaduto da EPNB, contornando-o em direção ao Núcleo Bandeirante. Deixou a EPNB pegando uma saída à direita. Estavam em um trecho do Parkway dividido entre comércio e condomínios, conhecido ponto de travestis.

O momento era de cautela, visto o pouco movimento na região. Já imaginando o desfecho, deixou a câmera sobre o banco do carona, precisava registrar tudo. O CRV parou e, na hora, uma travesti apoiou os braços na janela. Gabriel apagou os faróis e pode avançar sem chamar atenção. Parou junto ao meio-fio, desligou o carro e pegou a câmera. A travesti deixou o CRV, que continuou parado e ligado. Então outra aproximou-se e entrou no carro, sem rodeios. Gabriel conseguiu boas fotos do momento. O Honda começou a mover-se novamente, o detetive continuou a segui-lo. Foram pela via do Parkway em direção à Águas Claras, seguiram até a EPTG – sempre em velocidade abaixo da via, uns 40km/h. Fizeram toda a EPTG até ingressar novamente na EPIA e mais uma vez entrar no Parkway pela EPNB, onde a travesti deixou o carro.

O trabalho estava encerrado e foi mais fácil do que presumido por Gabriel. Bastava juntar as fotos ao relatório e entregar à contratante, que pagaria o combinado – um valor bem abaixo do praticado mais indicações dos serviços – e saberia, enfim, que o marido mantinha relações com travestis.

Depois de tantas noites mal dormidas, aquela seria de bom sono e alívio, pois dava o primeiro passo na nova carreira. A cabeça repousada no travesseiro, todavia, passou a refletir. A travesti entrou no carro, o carro de Demétrio, com Demétrio ao volante. Estes eram os fatos. Contudo, o carro não entrou em motel ou qualquer outro lugar, só rodou lentamente pelas vias até retornar ao ponto inicial. Vai que o homem aprecie algo para o qual não precisasse parar o carro. Seria isso? Pronto. A interrogação foi suficiente para tornar aquela noite desagradável como as outras. Só pôde sossegar quando decidiu retomar o assunto na manhã seguinte.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

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