O Quadro

Segue um conto de suspense, o primeiro que me atrevo a produzir.

“Ele dá um passo cada vez que você faz um pecado”. Estranho como estas palavras ainda visitavam a mente de Marcinho vez em quando. Faltando dois semestres para formar-se engenheiro, continuava apegado às coisas da fé. Conduzia a vida policiando as condutas, buscando reparar qualquer ato por ele considerado contrário aos mandamentos divinos. Não achava que o tinhoso se aproximava a cada deslize, como advertido pela prima mais velha quando ele tinha 5 anos de idade, lá na estufa de fumo perto da casa da vó Noêmia. Mas a prestação de contas chegaria, nisto sim acreditava.

O calor extremo daquela sexta-feira, última do semestre letivo, anunciava um dos verões mais quentes da década. Perfeito para curtir no litoral catarinense. Por isso mesmo fez coincidir as férias de aula com as do trabalho.

Marcinho tinha planos. Passaria a noite de sexta e parte do sábado com os pais. À tarde iria acampar na casa velha da vó Noêmia, na colônia. O pai advertiu que há muito não ia na tal casa, o rapaz dizia estar tudo certo, que já tinha falado com o irmão dele, o tio Bernardo.

– Precisa de uma reforma, empilhamos algumas coisas de paiol lá. Mas tem água e energia. E gambás, ratos… – disse Marcinho, lembrando a resposta do tio.

Mochila pronta, Marcinho foi de carro até a casa dos tios, às margens da rodovia, a 15km da cidade. Da rua conversou um pouco com o casal e recebeu a chave. Concordou com Bernardo quando este sugeriu deixar o carro, pois havia chovido muito há dois dias e o carro atolaria com facilidade, se não na ida, com certeza na volta. Como não havia posto na conta este detalhe, chegaria à casa velha após o pôr-do-sol.

As árvores altas e a mata fechada que acompanhavam a estrada tornavam a caminhada fresca e agradável. O som de inúmeras espécies de aves fazia aflorar memórias da infância, quando perguntava a um adulto sempre que ouvia um canto ainda desconhecido. E destas memórias veio a advertência da prima, proferida devido a um palavrão que ele usou para xingá-la em certa ocasião, quando brincavam na estufa há quase 20 anos.

O sol já se punha atrás da serra, mas os olhos de Marcinho foram pegos de surpresa, não se deram conta da noite que já se precipitava. Só a percebeu quando avistou as ruínas da estufa abandonada e não conseguia ver maiores detalhes do teto desabado. Tais ruínas, à esquerda da estrada, era referência para a entrada da casa velha, uns 50 metros adiante. Ele sacou uma lanterna e seguiu iluminando o mato à direita enquanto caminhava.

Os bichos da noite já se anunciavam quando ele encontrou a estrada de acesso, completamente tomada de mato até a cintura. Adentrou às cegas, mas o chão firme e regular confirmavam haver, sim, uma estrada ali. O mato baixou até os joelhos enquanto a estrada caía levemente em um declive. Uma centena de metros mais ou menos e, na parte mais baixa do caminho, chegou à ponte de madeira. Se o carro não atolasse na estrada, nem engalhasse no mato, com certeza cairia no riacho com a ponte, pensou. E lembrou de como a prima complementara a ameaça: “Ele já deve tá lá na ponte. Te cuida!”.

Depois da ponte foram mais uns 100 metros até a casa. Teve uma mistura de sensações. Era a casa onde tantas vezes esteve com os pais a cada quinzena. Brincou muito de esconde-esconde e futebol com os primos. Até o aroma do café e das comidas coloniais ele sentiu no momento. Mas o descuido com o que considerava um patrimônio familiar também o incomodava. Parecia um sepulcro de tantas boas lembranças. Não culpava os tios, conservar a propriedade demandaria tempo e dinheiro. Se daqui uns anos ela ainda estiver de pé e eu tiver dinheiro suficiente, faço proposta de compra e faço daqui meu sítio, pensou.

Com apoio da lanterna ele abriu o cadeado e retirou a corrente pelos furos da porta e da parede – a fechadura não tinha mais qualquer serventia. Acendeu a luz. Que bagunça! Tinha desde garrafões de vinho até pulverizadores de veneno. Uma rústica mesa de madeira brigava por um lugar no centro da sala. Num dos cantos, sacos de adubo vazios reforçavam a nova serventia da casa. O quarto, pelo menos, estava até limpo. Tinha um pequeno guarda-roupas e uma cama com colchão de palha coberto por uma colcha. Banho não era problema, já tinha tomado na casa dos pais. Deixou a mochila ali mesmo e voltou para a sala.

Não tinha condições de usar a mesa. Não naquele estado, demasiadamente empoeirada. Tirou o celular do bolso, não havia o mínimo sinal. Inventou de limpar a mesa de algum jeito para comer algo. Mas estava desprovido de um pano ou papel. Olhou em volta, avistou os sacos de adubo. Abriu caminho entre as bugigangas até alcançar um deles. Estava tão empoeirado quanto a mesa, mas por dentro estava até limpo. Não tinha pano mas tinha canivete. Cortou o saco plástico convertendo-o em uma toalha de mesa improvisada. Pegou uma garrafa de suco e um sanduíche da mochila. Mas… e cadeira? Não era lá um problema, mas a presença da mesa requeria ao menos uma cadeira obrigatoriamente. Deixou tudo pronto na mesa e tratou de remover mais alguns objetos, fazendo bastante ruído. Estava certo! Uma cadeira surgiu no outro canto, debaixo de uma lona dobrada. Livrou a cadeira e, quando a levantou, um tipo de placa que estava atrás dela, encostada na parede, caiu. Quase não fez barulho, pois era um quadro com moldura simples. Marcinho ajeitou a cadeira junto a mesa e foi conferir do que se tratava. A pintura estava de cabeça para baixo e, claro, bem empoeirada. Não precisou limpar, bastou virar um pouco para largar o objeto com um susto.

– Tinha que ser essa merda de quadro?

Ele não lembrava quem era o santo, mas sob os pés dele… Sim, o fiscal dos pecados, um dia anunciado pela prima. Talvez por isso detestasse tanto aquela obra. Achou que tinha sumido na história, que jamais o veria novamente. Se fosse para tornar a ver, que fosse na casa do tio e não na casa velha da avó, e não naquelas circunstâncias. Dormiria aquela noite sozinho, em companhia apenas de tão detestável pintura logo ali, junto à parede da cabeceira da cama? Nem pensar! Catou o quadro evitando olhar para a mente não gravar a imagem. Jogou na rua a uma distância segura da casa. Depois voltou com algumas embalagens velhas de papel e o isqueiro. Montou uma pequena fogueira e pôs o quadro em cima, sempre com a face para baixo. E ateou fogo.

– Volta pro inferno! – declarou com raiva. Raiva que se fez arrepio ao ouvir como se fossem pequenos gritos macabros vindos da fogueira. – Coisa da cabeça. Coisa da cabeça – sugeriu-se.

Enquanto fazia a refeição dizia para si mesmo tranquilizar-se, pois o quadro tinha desaparecido de vez. Em resposta à própria consciência, buscava mostrar alívio, um falso alívio. As horas avançavam e não havia nada mais a fazer. O plano era dormir cedo para acordar cedo, mas ele relutava. Outras tantas vezes consultou o celular: nada de sinal. O canto da sala, de onde retirou a cadeira e depois o quadro, era evitado. E isso de evitar olhar para lá perturbavam mais e mais. Lógico que o quadro não iria reaparecer do nada, mas ele não conseguia confirmar isso. E tinha que dormir em algum momento. Sair àquela hora estava fora de cogitação. Decidiu finalmente que deveria ir dormir. Primeiro foi no pequeno banheiro escovar os dentes. Estando pronto, era deitar e adormecer. E aquele canto do quadro ficaria sem conferência? Talvez se não pensasse mais naquilo… Não adiantou. Voltou para junto da mesa e arriscou uma olhada rápida, tão rápida que de nada adiantou. Tentou novamente, outra vez e… O canto estava vazio. Que alívio! É incrível como a mente da gente prega peças.

Mais calmo, deitou na cama só de cuecas, pois o calor ainda era intenso. O celular não tinha como distraí-lo sem ter rede. Ele, então, buscou na memória do aparelho por qualquer coisa interessante. E achou alguns arquivos de conteúdo adulto, os quais foi visualizando. Dormiria com bons pensamentos, afinal.

“Ele dá um passo cada vez que você faz um pecado”. Marcinho congelou e sentiu a nuca arrepiar. Logo resolveu agir, apagando todos os arquivos do tipo. Não era o suficiente. Começou a rezar. Só que o pavor crescia em vez de minguar, quanto mais orava. A reza parecia piorar as coisas, então parou e puxou a colcha até cobrir a cabeça. O sono estava condenado, seria uma longa noite. Sem recursos eletrônicos, buscou na memória situações engraçadas ou agradáveis que vivera. Mas a mente conspirava. A figura do quadro dava um jeito de aparecer nos pensamentos. Pelo menos o sono vinha forte e Marcinho sentia que as pálpebras fechariam em definitivo a qualquer momento, encerrando a tortura.

Teria adormecido não fosse um barulho no forro acima da sala, como se alguém ou alguma coisa tivesse ali pousado bruscamente. Nunca ele havia sentido pavor semelhante, e só não gritou porque o sabia inútil. De repente o barulho recomeçou como se andando às cambalhotas, e foi se deslocando em direção à porta da frente, acompanhado de uma espécie de vocalização fantasmagórica. E, tal qual no primeiro barulho, pousou na área em frente à porta. No mais absoluto terror, Marcinho chorava debaixo da colcha. Através do tecido via a luz do quarto. Virou o rosto contra o travesseiro para não ver a luz, pois ela seria bloqueada a qualquer momento por aquele que em breve adentraria o quarto. Estalos no assoalho de madeira e nas paredes confirmavam a presença do mal. Outros ruídos, agora na sala, anunciavam o final iminente. Marcinho chorava baixo, mas com muita intensidade. Palpitação e suor, desespero silencioso. De repente…

Os olhos dele abriram-se na mais absoluta paz. A casa velha deixava os primeiros raios de sol entrarem por algumas frestas, enquanto a natureza acordava. Marcinho levantou do que poderia julgar ter sido a melhor noite de sono da vida. Levantou e abriu a janela do quarto, a manhã estava fresca. Abriu o resto das janelas e a porta da sala. E riu de si mesmo. A manhã dera-lhe coragem para desdenhar dos fatos noturnos, coragem totalmente inexistente há poucas horas. Passou um agradável dia na casa da vó Noêmia, refletindo vez ou outra sobre o que passara. Não era apenas imaginação, e sim fatos. E isso, no fundo, o perturbava. Fechou a casa no meio da tarde e, antes de sair, parou diante da extinta fogueira. Esperava ver restos da moldura, mas só havia cinzas. Olhou para a porta da frente da casa, pensou em voltar e conferir o canto da sala. Decidiu não o fazer. Talvez nunca mais retornaria à casa velha da vó Noêmia.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

Um comentário em “O Quadro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: