Suco de Copo

Já tinha algum tempo morando em Águas Claras, uns quatro anos. Além dos amigos de sempre – os de Orleans que aceitaram o desafio de, longe da família, começar ou dar continuidade na jornada profissional na capital do país – fizemos outros tantos, vindos das mais diversas partes do Brasil.

Uma dessas amizades que fizemos foi com a Zeneida. É uma senhora de idade mais avançada, com seus probleminhas de saúde. Freira “aposentada”, atualmente residindo só em um pequeno apartamento aqui em Águas Claras (apartamento pequeno em Águas Claras é redundância). Tem alguma dificuldade para andar, faz uso de bengala e depende da irmã e de quem se dispuser para levá-la aonde precisa. Nos conhecemos na igreja e de vez em quando oferecemos carona para a celebração.

A Zeneida tinha alguns pacotes vindos de São Luiz no Maranhão – se não me engano, onde residira antes – e estavam a um bom tempo no galpão de uma transportadora no Setor de Indústrias e Abastecimento aqui de Brasília. Estava difícil alguém buscar as coisas para ela; “é porque tem um bocado de coisas” dizia. De fato, seria necessário uma caminhonete para o serviço. O problema era onde arranjar tal veículo. Quem tinha era porque usava para trabalho, ou seja, estava sempre ocupando a caçamba. Um outro amigo da igreja se ofereceu mas, na hora, precisaram da caminhonete no trabalho.

A Grasi e eu já estávamos preocupados não se sabe qual o tamanho do saco dessas empresas de transporte. Poderia encher a qualquer momento e eles inventarem um destino para os volumes da Zeneida. E como poderíamos ajudar? Meu carro era um Celtinha, minúsculo, mal cabia a Grasi, eu e nossa bagagem. Buscamos informações acerca de freteiros, profissionais de mudança doméstica, mas não obtivemos sucesso. Quer dizer, até que encontramos quem fizesse o trabalho, mas cobraria – e bem – para fazer pouco esforço (coisas de Brasília).

O tal amigo da igreja, o da caminhonete, tinha combinado com a gente que poderia ir num sábado pela manhã mas, como disse, no dia ele ligou informando que não poderia fazê-lo por um imprevisto de trabalho, perfeitamente compreensível. Eu já tinha visto a encomenda, tinha duas ou três caixas, uma era bem grande. Olhei pro Celta e fiz cálculos mentais. Tá, cálculos nada, baixei o encosto do banco traseiro e fiquei imaginando se as caixas caberiam.

Dirigi-me ao SIA, uns quinze quilômetros de casa. Ao chegar disse aos funcionários que levaria as caixas. Eles já estavam esperando, tinha acertado com eles na vez em que fui ver as caixas da Zeneida. Encostei o carro, abri o porta-jóias, digo, porta-malas e daí em diante foi jogar Tetris – para quem não lembra ou nunca viu pesquisa na internet. As caixas não couberam, o que não foi nenhuma surpresa. Quer dizer, não dava com a tampa do porta-malas fechada. Mas peguei uns barbantes como os funcionários da empresa e amarrei a tampa, faltando pouco mais de um palmo para fechá-la totalmente. Assim pude sair e levar, com a devida cautela, as caixas para sua dona. E lembrei agora: pior que não deu para levar tudo de uma só vez, tive de fazer duas viagens. Não tem problema, era uma boa ação e essas coisas tem que ser feita de boa vontade, de coração, e eu sentia isso.

Chegando no prédio, entrei pela garagem e parei próximo ao elevador. Duas viagens novamente, desta vez para subir no elevador com as caixas e arrastá-las pelo corredor até o apartamento. Cheguei a ficar suado e não preciso dizer que a Zeneida ficou muito agradecida. Aqui abro parênteses. Juro que não tinha interesse nenhum em tornar público este fato, ficaria entre a Zeneida, a Grasi e eu. Inclusive pedi isso à Zeneida. Tenho minhas crenças e este tipo de coisa é para, digamos, ficar na poupança para o dia da minha prestação de contas eu ter minhas moedas. A Zeneida, religiosa, entendeu, mas sentiu-se na obrigação de retribuir de alguma forma, sem ficar só nas palavras. Estando visivelmente suado, ela ofereceu um suco de maracujá. Relutei, pois queria ir logo pra casa e tomar um bom banho, daí recordei de uma lição que aprendi com Dona Sueli, num veraneio na praia de Campo Bom. Na ocasião eu já tinha aprendido a não ser egoísta, a não querer as coisas, saber dizer não. Estávamos na casa do Bruno, pai do Kate, os adultos jogavam canastra enquanto nós, os pequenos, brincávamos na rede ou com os brinquedos do Kate. A Dona Elzi veio com uma lata de alumínio oferecendo cavaquinhos, os quais recusei. Todos pegaram e saborearam e a Zi ofereceu novamente, e novamente neguei. Ela chegou a insistir, mas não teve jeito: mesmo com água na boca, resisti. No Fusca, voltando pra nossa casa, falei todo orgulhoso da minha provação – a Mity e a Nanda tinham comido, essas mal-educadas – isso aumentava ainda mais meu orgulho. Só que, pra minha surpresa, a mãe disse que não se deve negar o que as pessoas oferecem, é feio, a gente tem que aceitar, daí quem ofereceu fica feliz. Não preciso dizer que fiquei confuso e puto. Confusão óbvia, quem não ficaria confuso? Puto de ter posto à prova os recentes ensinamentos justamente quando podia ter saboreado cavaquinhos sequinhos, deliciosos, com açúcar e canela. Na boa, deu vontade de fazer briga pra gente voltar e eu encher a pança de cavaquinhos.

Mas, como dizia, aceitei a oferta do suco e, óbvio, ela expressou satisfação. Enquanto a gente conversava ela ia preparando o liquidificador. Da geladeira ela pegou um copo de plástico com polpa de maracujá congelado. Água na jarra, açúcar, a polpa e era só ligar. Pronto o refresco, ela encheu um copaço e me serviu. Não me sentei em nenhum momento pois realmente não queria me demorar. Fui bebendo o suco, estava delicioso. Às vezes sentia um farelinho descendo pela garganta. Normal, semente de maracujá triturada, o coador sempre deixa passar alguma coisa. No último gole veio bastante farelo, provavelmente a Zeneida usou uma peneirinha não tão fina. Sem problemas, maracujá se come engolindo as sementes. Já estava satisfeito, mas acho que ela não queria ver sobrar o suco; mora sozinha, mas queria mesmo era ter certeza da minha satisfação. O segundo copo e a mesma coisa, bastante farelo passando na goela. A Zeneida já estava oferecendo o terceiro copo, mas daí não teria jeito, eu estava realmente cheio de suco. Ainda assim ela já estava preparando a jarra para encher o copo novamente. Com a colher foi mexer o suco para misturar. Esquisito, parecia haver algo mais dentro da jarra. Ela tirou com a colher o que parecia ser parte da polpa ainda congelada, mas não era a polpa. Lembro bem da cara que ela fez, ao constatar que o que vira pendurado na colher era o que sobrara do copo de plástico, de onde ela esquecera de retirar a polpa congelada. Não esqueço a boca entreaberta e os olhos arregalados, observando o resto de copo e, depois, a mim. Ah, se não matar vai engordar, não tem problema, disse eu para amenizar, pois deu pena ver o estado de choque da senhora.

O que era para ser um agradecimento, uma pequena retribuição, tornou-se uma avalanche de pedidos de desculpas. Por mais que eu a acalmasse ela não parava de pedir perdão, não se conformava. Eu disse insisti que não tinha problema, que o suco estava delicioso e que o plástico granulado não faria mal algum. E não fez, olha eu aqui escrevendo, quase dois anos depois.

O que, achou que o título referia-se ao recipiente? Pois é, na verdade refere-se ao conteúdo.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

3 comentários em “Suco de Copo

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