A Rua dos Ossos

Se quebrar um ovo ali na rua, frita na hora, ouvia-se. É que as lajotas ferviam sob o sol de janeiro, forçando os moradores de Uruans a combater a onda de calor como podiam. Casas e prédios multiplicaram aparelhos de ar condicionado em suas paredes, pareciam carrapatos, um surto deles. Dane-se a estética, o calor daquele verão estava insuportável. O único obstáculo era ter de aguardar na fila porque as lojas ficaram sem estoque.

Havendo recursos e espaço para construir, não se pensava duas vezes. Um buraco era aberto e em poucos dias surgia uma piscina. Porém, tal como os condicionadores de ar, também equipamentos e mão-de-obra para as piscinas demandavam paciência e espera.

Na rua Dr. Dalberto Armadus as coisas não eram diferentes. Pelos caminhões de entrega contados, ao menos cinco aparelhos haviam chegado na vizinhança. Além do aparelho, uma das casas acabara de concluir a instalação da piscina, fato que, somado ao castigo solar, incentivou outros a fazerem as contas. Doutor Gildo, delegado, neto do Bertão Armadus, conversava com os moradores sempre que possível em suas patrulhas informais. Sem novidades. Quando havia movimento em alguma morada, ou era ar condicionado ou piscina sendo instalada. Mas ele fazia questão de sondar, fazia isso na cidade toda. Tornara-se um rosto dos mais conhecidos, um facilitador nas suas pretensões como chefe do executivo no próximo pleito.

Túlio, morador daquela rua, pesquisava no computador para saber se teria condições de proporcionar ao casal de filhos pequenos, 3 e 8 anos, a diversão de uma piscina. O material não seria problema, tinha facilidades como parcelamento ou empréstimo para comprar. A questão era a mão-de-obra, à vista e sobrevalorizada com tanta demanda. E foi isso que Túlio apresentou para a esposa Patrícia numa das vezes em que esta foi conferir como andavam os cálculos. E concordaram em adiar o sonho, deixar para o próximo ano, incluindo a obra no orçamento.

Concluída a tarefa, Patrícia acompanhou a espreguiçada e o bocejo do marido. Tinham a tarde de sábado livre para o que bem entendessem. Um banho de mangueira com os pequenos no jardim, seguido de um reforçado café da tarde, estava de acordo. Ou mesmo usufruir do ar gelado dentro de casa, vendo coisas na internet enquanto as crianças brincavam. E foi pensando nas cômodas opções que Túlio desligou o computador na sala e foi até a cozinha, sendo interceptado por Luana, de maiô de banho, perguntando quando a piscina ficaria pronta. Tocado pela ternura, ele esclareceu que era só para o ano que vem (talvez ela não tenha compreendido as conversas dos adultos da casa). A pequena mostrou-se resignada, voltando para o quarto. Túlio observava, a filha pegou um gibi e ajeitou-se na cama, sem se vestir.

Patrícia e Túlio ordenavam a louça do almoço, conversavam sobre os planos da piscina quando foram interrompidos pelo pequeno Léo, querendo saber “po que a Lu tá solando?”. Patrícia foi verificar, Túlio pegou o guri no colo dizendo que estava tudo bem, que não era nada.

A esposa chamou, já sabia o motivo. Túlio entrou no quarto com o garoto e viu a menina sentada de índio sobre a cama e secando as lágrimas. Ela queria tomar banho de piscina. Ele passou o garoto para Patrícia, sentou próximo da filha e, com o braço envolto aos ombros dela, explicou os motivos de terem adiado o plano. Mas, por mais que justificasse, não conseguia reverter a impressão que ela havia tido, de que naquele dia, como mágica, surgiria a piscina para ela e o irmãozinho brincarem até o anoitecer.

A mãe ouviu do marido a sugestão de irem a algum parque aquático nas proximidades e devolveu uma expressão de desânimo, já que os últimos programas do tipo não foram satisfatórios, com temporais repentinos abreviando bem o passeio, ou filas para entrar, para comprar lanches e até para os banheiros. Túlio concordou e voltou os olhos para a filha. Talvez o Léo jamais conseguiria comovê-lo como a irmã o fazia naquele momento. Ele beijou a cabeça de Luana, pediu licença para Patrícia e foi até a cozinha beber água. Pensou. Sentiu o abafo dos mais de trinta e cinco graus ao abrir a porta para a rua. Olhou para o jardim. O espaço destinado para a obra estava lá, com uma pequena trave de gol e alguns brinquedos, aguardando a passagem de mais um ano. Nem seria necessário cortar a jovem laranjeira. E só a mão-de-obra era empecilho. Voltou a fazer cálculos ali mesmo, olhava para o campinho, para o espaço próximo ao muro, e voltou decidido para o quarto de Luana, anunciando ter novidades. Fez a pequena prometer que não o cobraria a promessa a cada hora, pediu uns dias e garantiu o primeiro banho de piscina para dali a uns quinze dias.

A alegria no quarto motivou Túlio. Em cinco minutos trocou de roupa e saiu de carro. No único grande supermercado da cidade foi à seção de ferramentas, onde encontrou meio escondida uma picareta, aparentemente usada e devolvida (embora um funcionário garantisse que era produto novo). Interessou-se também por uma caixa de isopor, mas conteve-se, devolvendo-a à prateleira mais alta da gôndola. Ao retomar o carrinho de compras, deu de cara com o veterano delegado, que foi preciso nas deduções quando presumiu tratar-se de planos para uma piscina. Túlio riu e concordou quando o simpático delegado se fez convite, não para ajudar na obra, mas para usufruir de bebidas geladas ao lado da piscina numa tarde qualquer.

Satisfeito com as risadas trocadas com o delegado, Túlio deixou o estabelecimento. Em casa, juntou uma pá a picareta, demarcou a área e começou a golpear a grama. Luana acompanhava sem esconder a felicidade, sentimento que foi dando lugar à impaciência ao perceber o volume de terra tirada para tão pouco buraco. Tal constatação a fez quebrar a promessa e questionar a eficiência do pai. Ele, em vez de lembrá-la do acordo, sugeriu desenrolar a mangueira e brincar com o irmãozinho. Ela concordou.

As crianças brincaram com a água até cansarem, então entraram para o lanche da tarde. Antes que Patrícia fosse chamar o marido, este, abrindo a porta, chamou-a para a rua. Tinha encontrado algo na ainda precoce escavação. A esposa acompanhou-o até os fundos, próximo ao muro. Ele parou, conferiu que as crianças não estavam por perto e apontou para uma pedra suja de terra, aos pés da laranjeira. Porque Patrícia não compreendeu, Túlio alcançou a tal pedra para uma melhor análise.

Uma mandíbula, disse ela, surpresa. Estava certa, só que tinha mais. Observou os dentes mais de perto. Era um osso humano.

Túlio continuou a escavar enquanto Patrícia voltou para dentro de casa, recolheu a louça das crianças e as encaminhou para o banho. Enquanto a dupla brincava na banheira de plástico, ela usou o celular para uma pesquisa. Sendo procedente de outro Estado, pouco conhecia sobre a história catarinense.

Depois que a dupla adormeceu – Luana assistindo vídeos e o pequeno Léo tão logo a mãe acabara de vesti-lo – ela foi até o marido, com novidades. Apostava se tratar de restos de algum índio Botocudo.

Ela contava com entusiasmo enquanto rolava a tela do dispositivo em busca de alguma gravura que pudesse dar uma ideia do proprietário da mandíbula. Falou, falou, mas Túlio nada respondia. Indagou com um olhar, e ele quieto. Alguns segundos, e só então ela percebeu o braço do marido apontando em direção ao tronco da laranjeira. Na verdade, próximo do tronco. Ali, protegidos pela sombra da copa, quatro pedras arredondadas, sujas de terra. Pedras? Desta vez ela não se enganou. Num misto de susto e excitação, viu se tratar de crânios. Uma grande descoberta, sem dúvidas, e deveria ser entregue a quem de direito o quanto antes. Patrícia se voluntariou para a tarefa, ambos sabiam que Túlio estava sob fiscalização da filha.

No momento em que a escavação rendia mais por conta da trégua do sol moribundo, a esposa voltou ao canteiro de obras. Comunicou ter conseguido o contato de uma arqueóloga da universidade federal da capital, para quem já enviara imagens dos ossos. Só que mal reportou o cumprimento da tarefa, recebeu notificação da arqueóloga. Sequer precisou ver os crânios pessoalmente, afirmava não serem de índio. Nas mensagens a mulher ainda avisava já ter encaminhado a imagem à polícia. Não levaria muito para uma viatura estacionar em frente à casa.

Doutor Gildo os visitou muito antes do imaginado. Tirou fotos dos ossos e do local onde foram encontrados. Depois ensacou-os e levou-os à delegacia.

A obra da piscina continuaria por mais duas semanas. Luana, em trajes de banho, diariamente “motivava” o pai, circulando a obra. Até chegar o grande dia da inauguração.

Ainda faltavam acabamentos, nada que impedisse o primeiro banho. Um palmo de água e os pequenos já se divertiam. Já os pais não conseguiam se entregar totalmente ao clima de festa, um acontecimento escolhera aquele mesmo dia para abalar Uruans. Divulgava-se na imprensa local e até estadual que os ossos da rua Dalberto Armadus haviam sido periciados e a conclusão fora que, de fato, não pertenciam a índios, mas a pessoas tidas como desaparecidas décadas atrás, quando cruzaram o caminho do ex-delegado e ex-prefeito Bertão.

Gildo parou com as patrulhas, tirou licença e daí a um tempo, soube-se, foi transferido de comarca, sequer despediu-se dos concidadãos mais próximos. Já os Armadus remanescentes não tocavam no assunto, alguns envergonhados, outros por total indiferença.

As coisas foram voltando ao normal em Uruans. O calor, como se tivesse se distraído com o desenrolar daquele episódio, lembrou de voltar com força após tudo resolvido. E a Luana e o Léo continuaram a diversão agora acompanhados dos pais, na piscina de sua residência, na renominada Rua dos Ossos.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

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