Relatório de Serviços

Enfim a chuva dava uma trégua. Só então o detetive Zaneraro saiu do carro em algum lugar na Asa Sul, com uma pasta de couro na mão. Deixou o veículo num estacionamento comum nos prédios do Plano Piloto e caminhou pelo saguão aberto de um desses até alcançar uma rua comercial, cujas vagas de estacionamento estavam ocupadas, como constatara ao trafegar por lá minutos antes.

Entrou em uma pizzaria de dois pisos. Um garçon o recebeu, oferecendo uma mesa.

– Eu me viro, pode deixar – disse agradecendo.

Dirigiu-se à escadaria e subiu ao mezanino. Talvez porque fosse dia útil havia um tanto de mesas vazias, cada qual sob a luz tímida de dois copos de vidro pendurados de boca para baixo, com uma pequena lâmpada incandescente a clarear o móvel naquele ambiente intencionalmente pouco iluminado e disfarçado de rústico. Mas Zaneraro foi até uma no canto, meio retirada, e que já estava ocupada por somente um cliente. Aproximou-se do homem precocemente calvo, servido de uma taça de vinho, e pediu para sentar ali. Surpreso e olhando em volta a larga oferta de mesas, o homem não teve tempo te argumentar: Zaneraro já se acomodava no lado oposto da mesa.

Quase imediatamente um garçon surgiu com a comanda pronta a receber o pedido de um refrigerante com gelo e limão. Mal o funcionário se afastou, Zaneraro começou a falar:

– Gosto de chuva, mas não a todo instante, como nessa época do ano.

O homem não falava, apenas observava com certa indignação. O intruso mostrava-se tão à vontade que, enfim, o calvo resolveu confrontar.

– Olha, tem muitas mesas vazias para escolher. Eu gostaria de ficar sozinho.

– Senhor Boris, recuperou seu carro furtado?

Novamente o homem se fechou, com uma expressão de alerta e olhar questionando fortemente “quem é você?”.

– João Zaneraro, detetive particular – respondeu, trazendo a pasta para cima da mesa, já liberando as duas travas, mas sem abri-la. – Mercedes Benz… Cara, é muito azar.

– É… muito. Eu ia perguntar como sabe o meu nome, mas pelo jeito você andou me pesquisando – comentou Boris, ainda em alerta.

– Minha gama de trabalho é bem diversificada. Casos de traição, roubo, homicídios… Inclusive ajudo muito a polícia. Você sabe, eles não têm como se concentrar em todos os casos. E, claro, trabalho também com seguradoras.

– Que bom, mais chance de recuperar o carro!

– Já recuperei! – anunciou, deixando Boris visivelmente tenso.

O detetive abriu a pasta e tirou algumas folhas.

– Está no fundo do lago. Não o Paranoá, que é muito vigiado. No Corumbá. Olha as imagens aqui – disse, mostrando fotos dispostas duas a duas em cada folha. Mostravam as formas de um carro em águas turvas, impossível identificar marca ou modelo. – Deu um trabalho danado chegar no local e submergir uma câmera, mas deu certo, como você pode ver.

– E… você já comunicou à seguradora? – indagou Boris, antes de um gole mais avolumado do vinho.

– Tem o procedimento policial aguardando conclusão. É com eles que preciso falar antes.

Boris quase havia esvaziado a taça de uma vez quando perguntou sobre a seguradora. O fez antes da próxima indagação:

– Não informou ninguém ainda e veio me procurar. Por quê?

– O senhor mudou a apólice há três meses, ampliou o índice de cem para cento e trinta por cento. Vai receber uma pequena bolada… – observava o detetive, interrompendo para receber a bebida do garçon, que já trazia, também, uma nova taça para Boris.

– As fotos aí… Não tem como saber se é o meu carro. Normalmente carros roubados vão parar no Paraguai. Vou na delegacia amanhã cedo falar com o delegado, amigo meu. Quero ver o que ele pensa de alguém praticar extorsão se passando por policial. E agora cai fora, senão chamo a polícia agora mesmo!

– Policial não, detetive particular. Foi exatamente isso que falei quando cheguei – rebateu Zaneraro, enquanto buscava identificar um minúsculo fragmento marrom boiando no copo. – E o carro não está no Paraguai. Não sei o que lhe disseram, mas na real: você se importa com o destino do carro? Ou o que vale é não ser encontrado? Quanto ao seu amigo delegado, eu deveria saber disso, já que andei te observando. Até te encontrei aqui, sozinho… não concorda? (ah, é só uma semente de limão) – concluiu, retirando com o dedo e mostrando a Boris.

– Entedi. Qual o seu preço?

– Os valores dos meus serviços variam de acordo com a complexidade. Qual valor você acha justo por ter encontrado o seu carro? – questionou Zaneraro, pegando uma caneta de dentro da pasta e entregando-a junto com uma das folhas com as fotos impressas. Hesitante, Boris escreveu na face limpa da folha, eliminou o palpite com rabiscos e escreveu outro valor, entregando ao detetive. Zaneraro devolveu, com cara de quem não levou a sério. Boris tentou novamente, Zaneraro fez gesto positivo.

– Acho que é isso, desde que apliquemos cento e trinta por cento, como você gosta de fazer – sugeriu o detetive. Boris acedeu com o terço de acréscimo.

– Tem que ser dinheiro vivo, presumo. Não tenho dinheiro aqui comigo.

– Ora, quem hoje em dia carrega dinheiro consigo? Use o celular e faça uma transferência. Vou falando meus dados bancários.

Boris não disfarçou a estranheza. O chantagista estava prestes a deixar um rastro da clara extorsão. Não seria tão esperto, afinal? Obedeceu calado. Tomou o celular e, estando pronto, o detetive ditou os dados. Confirmada a transação, Boris esboçou um quase imperceptível sorriso.

Zaneraro então pegou um papel escrito Relatório de Serviços, preencheu algumas coisas além do valor acordado, o assinou e o entregou a Boris. Guardou tudo o mais de volta na pasta, fechou e foi levantando.

– Foi um prazer servi-lo, senhor Boris – disse, despedindo-se.

Boris esperou até que o detetive sumisse na escadaria, só então leu o documento. Atestava o recebimento por serviços de detetive particular, prestados com o intuito de investigar o furto de um Mercedes Benz, sendo inconclusivas as investigações.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

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