A Caixa

Os fenômenos celestes carentes de explicação mais contundente sempre fascinaram e fascinam as pessoas.

Difícil alguém negar o desejo de testemunhar um dançante ponto brilhante no céu, mesmo que, em sua imaginação, isso pudesse representar uma ameaça à raça humana.

Para o cético, há explicações mais plausíveis do que naves procedentes de outros mundos. E dizem: hoje há bilhões de câmeras filmadoras espalhadas pelo mundo na forma de aparelhos celulares, então por que ainda não temos imagens de naves e seus tripulantes?

No entanto, até esse grupo – dos céticos – passou a se ver desconfortável com um fenômeno justamente captado por um bom número dessas bilhões de câmeras, a partir de outubro de 2017. Não pontos brilhantes no céu noturno, mas charutos cinza-claros ou pretos, nitidamente interagindo com as nuvens, à luz do dia.

Os candidatos a explicação mais óbvia – computação gráfica ou drones – vieram de imediato e foram logo descartados, tamanha a quantidade e qualidade do material divulgado, de objetos em forma horizontal de uma gota bem alongada, pairando em áreas equivocadamente remotas. Alguns flagras tão bons que deixavam claro a ausência dos rotores, comuns aos drones. Sim, algo mais estava acontecendo.

Em busca de respostas, um alerta global estava instalado e, além das agências espaciais e forças militares de várias nações, também caçadores de recompensas empreenderam buscas para entender o fenômeno. Paralelo a isso, muitas montagens – aí sim utilizando recursos gráficos – circularam a ponto de atrapalhar as pesquisas sérias. Nelas, os objetos variavam no tamanho, na forma, na composição. Iam de naves que lembravam carros voadores futuristas até edifícios reais em armação metálica e vidro que simplesmente decolavam, abandonando seus endereços.

Se os objetos eram reais, e não eram drones, o que seriam? A resposta do senso comum era pronta e começava a preocupar os cientistas, que não viam outra alternativa. Pela primeira vez na história estávamos diante da possibilidade de estarmos recebendo visitas de outro planeta. E tal fato poderia guardar relação com a coincidente passagem do asteroide interestelar Oumuamua pelo Sistema Solar, justamente naquele ano, cuja maior proximidade com a Terra foi precisamente em 8 de outubro. Tal possibilidade ganharia um importante reforço em janeiro de 2020.

A Base Aérea de Brasília via-se tomada de pessoas em suas entradas e agarradas às cercas limítrofes. Era muita gente para um dia útil, bem mais que costumava haver no evento Portões Abertos. Davam conta do pouso de um avião da FAB trazendo um desses misteriosos objetos, nas primeiras horas da manhã. Vinha de Várzea Grande no Mato Grosso, de onde decolou também sob muitos olhares curiosos. Um senhor de meia idade, colono do cerrado aos pés da Chapada dos Guimarães, parou o carro em um posto da Polícia Rodoviária. Os dois policias viram o homem se mover com cautela, como se manuseasse um artefato de cristal. Ele tirou um saco de adubo fechado com barbante, que parecia guardar um balão de ar. Conversou com os policiais, dizendo que, naquele fim-de-tarde, foi buscar as vacas quando ouviu um estalo, logo após uma rajada de vento. Olhou em direção de onde veio o barulho e avistou algo caindo lentamente junto ao paredão da chapada. “Pensei que fosse um avião, mas não fazia ruído de avião”, explicava. Os policiais soltaram o barbante abrindo o saco. Fecharam às pressas novamente e um deles saiu, levando a coisa até a capital, Cuiabá.

Na Base Aérea de Brasília, mais e mais pessoas chegavam à medida que tomavam conhecimento dos eventos. No interior da base oficiais andavam rápido – quando não corriam – de um prédio a outro. Um helicóptero pousou no pátio deixando algumas pessoas e decolou em seguida. As especulações sobre algum artefato extraterrestre ganhavam força na imprensa, ainda mais quando enquetes registraram quase cem por cento nesse palpite. Mas ninguém falava. Da base faltava um porta-voz para dar esclarecimentos sobre o que, àquela altura, já não se tratava apenas de um incidente local, mas de proporções globais. A Base Aérea de Brasília tornara-se o centro noticioso do mundo.

Ao fim da tarde, a multidão deixou as cercas e foi se concentrar na entrada da Ala 1. Enfim, um porta-voz falaria. Repórteres amontoaram-se em frente à guarita, a qual teve de ser reforçada com mais soldados. A saudação de boa-noite do porta-voz decretou um silêncio sepulcral, e ele continuou a falar. E falou de um objeto voador não identificado entregue à Força Aérea em Cuiabá e encaminhado à Brasília, mas que não havia necessidade de alarme, pois se tratava de um tipo de drone.

Várias pessoas permaneceram em seus postos ao final do curto pronunciamento. Porém, os tomados de frustração – a grande maioria – começaram a deixar a base. E tudo ficou calmo por lá até perto das vinte e três horas, quando um comboio interminável de carros brotou do nada e tomou as vias em torno do aeroporto e da base. Muito mais gente do que antes buscou cravar lugar, ou nas entradas ou junto às cercas em outros pontos. Até barracas se viu armarem. Embora no interior da base as coisas pareciam mais calmas, tudo em redor indicava que havia algo novo.

Aos poucos, o motivo foi-se revelando. Um vídeo feito provavelmente em Várzea Grande mostrava, em um chão de cerâmica e rodeado por soldados armados, um artefato cúbico de metal, uns cinquenta centímetros cada lado, mal encostando no piso, variando à mais sutil corrente de ar. Um dos cantos, fugindo à forma, era cilíndrico e se movia lentamente, tal qual um tentáculo danificado. Logo abaixo da raiz deste cilindro, uma abertura irregular, talvez causada por um impacto. O autor do vídeo, sob advertência dos presentes, aproximou o foco da abertura. Havia grande movimento de minúsculas partículas de metal, aparentemente consumindo o cilindro para fechar a abertura. O habilidoso cinegrafista amador ousou chegar mais perto e foi recompensado. No interior da “caixa”, um pequeno globo, meio cinza, meio marrom, meio irregular. Não dava para dizer se era animal ou vegetal. Parecia ter ramos por todo lado, como se fossem pelos a se misturar com peças minúsculas de metal. E não emitia qualquer ruído. Recuperava-se da ferida alheio (ou alheia) à presença dos bípedes em seu redor.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

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