A Cortina

Duas horas da tarde de uma segunda-feira. Benito retorna à delegacia na Asa Norte após almoçar em um restaurante nas proximidades. No seu escritório de investigador junta os dezoito boletins de ocorrência registrados pela manhã e os ajusta batendo dois lados da pilha sobre a mesa. Perda de documentos, ameaça, vias de fato… Pessoa desaparecida. Era o que estava buscando. Separou o boletim e passou a trocar mensagens pelo celular.

Por volta das três horas o Renault Fluence preto estaciona no início da Asa Norte, na região central de Brasília. Benito desembarca e adentra a galeria até chegar ao único estabelecimento ali em funcionamento, uma loja de chaveiro – aliás, chaveira. Dona Paulina o atende:

– Viatura discreta?

– Sim, como combinado.

Paulina desenrolou a porta de aço e a chaveou, seguindo Benito até o carro. Rumaram para uma chácara próxima à rodovia Saída Norte. Um muro de concreto sem pintura cercava uma casa de alvenaria azul clara, separando o espaçoso terreno dos vizinhos.

À frente do portão de grade, ambos bateram palmas para se anunciar.

– Dona Sandra! – gritou Benito, sendo repreendido pelos olhos arregalados de Paulina no mesmo instante. Ele não entendeu, e continuou com as palmas. A casa parecia vazia, embora, há uns oito metros do portão, uma porta estivesse aberta, revelando parte da cozinha. Insistiram mais uns cinco minutos e desistiram.

Tão logo bateram as portas do carro, Paulina começou a falar:

– Vem cá, repete o que consta no BO.

Benito, pondo o carro em marcha, relembrou:

– Dá conta do desaparecimento de uma mulher de nome Sandra, trinta e seis. A amiga que registrou o boletim disse que a mãe da Sandra entrou em contato perguntando se ela sabia do paradeiro da filha, que veio à Brasília na tentativa de reatar com o marido, Hermes, mas parou de fazer contato já tinha seis dias.

– Muito bem. Agora você me paga um café com um pão-de-queijo e depois a gente volta. Daí você fica no carro e aguarda eu chamar.

Cumprido o itinerário proposto, a dupla retornou ao endereço coisa de quarenta minutos mais tarde. Benito ficou no carro enquanto Paulina chamou por Hermes. Ela foi prontamente atendida e Benito só foi se juntar aos dois quando Paulina a autorizou.

– Polícia Civil (vai, mostra a carteira) – conduzia Paulina. – Queríamos falar com a Sandra…

– Sandra?

– Nossa, mas está seco hoje! – emendou Paulina. – Consegue um copo de água?

Hermes convidou a entrarem na cozinha. Ele concordava sobre o clima seco enquanto abria a geladeira meio bamba para pegar uma jarra. A dupla ficou na entrada. Benito o observa, Paulina se posicionou ao lado de uma porta de cortinas recolhidas, que dava para uma sala de jantar conjugada com tv, bem arejada e clara por quatro janelas. O morador entregou as águas:

– Desculpa a bagunça, não tenho ninguém pra ajudar a manter. Moro sozinho, sou autônomo, trabalho fora…

– Acho que a geladeira não vai fechar – avisou Benito.

– É um dos ajustes que preciso fazer, mas “tô” sem tempo.

– Posso pedir mais um favor? – indagou Paulina. – Tem um programa agora na TV e não queria perder.

Prontamente, Hermes foi até o aparelho direcionado para um sofá de dois lugares com uma poltrona em cada lado e o ligou pelo controle remoto. Antes que perguntasse o canal, Paulina reclamou do brilho da janela na tela.

Hermes foi até a janela e puxou ambos os lados da cortina, sem surtir qualquer efeito.

– É que tá só no forro – disse, apontando um dos varões exposto. – Sente aqui na poltrona que melhora.

Paulina aceitou a sugestão, mas antes tentou no sofá, bem de frente para a tela. O brilho ainda pegava um terço da tela, então ela mudou para a poltrona indicada, resolvendo o problema. Hermes ofereceu o controle remoto.

– O que houve com a cortina? – perguntou a mulher, deixando o controle remoto de lado.

– Encardida, pedindo uma lavada.

– Lavou? Mandou lavar?

– Me desfiz. “Tava” muito ruim. Vou trocar todas.

Paulina levantou entregando o copo vazio, pedindo um pouco mais de água. Enquanto Hermes foi à cozinha, ela deu a volta por trás do sofá, passou perto das outras janelas com as cortinas completas e concluiu o circuito pela mesa de jantar, voltando para junto de Benito próximo à saída para a cozinha, onde recebeu a água de Hermes.

– Você tem uma boa casa, tem até pomar – observou a mulher, indo em direção à porta que dava para os fundos da cozinha.

– Obrigado. Mas sei que preciso criar capricho, aparar a grama na frente, terminar de pintar os muros – dizia Hermes, apontando a parede cujas poucas pinceladas de branco já apresentavam limo.

– Essas coisas são assim mesmo, tem que ter tempo ou pagar alguém para ajudar, como você disse – ponderava Paulina, continuando: – Importante é não deixar as coisas paradas, né? Vejo que você está sempre fazendo algo, começando alguma horta ali… – observou, apontando um pedaço de terra mexida no canto do terreno, bem próximo à uma laranjeira.

– Sim, sim! Vai ser tudo orgânico, nada de veneno.

– Olha só, a cortina estava muito pior que as das outras janelas?

– É, era a que “tava” pior, daí já tirei.

– Obrigada pela água. Benito, as algemas.

O jovem ficou sem ação, tal como Hermes. Só ao segundo comando ele tirou o artefato do cinto e, por trás do homem, o algemou.

– Tire fotos da janela sem cortina, da cozinha, do pomar e da terra mexida. O resto é com a perícia. O senhor Hermes vai responder por homicídio e ocultação de cadáver.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

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