Jamal, Jê e Bê

Jamal fazia o dejejum enquanto deslizava o indicador sobre a tela do celular. Despreocupado da rotina naquele domingo de manhã, fez a refeição calmamente, no ritmo da leitura das notícias. Nem a louça suja, acumulada desde sexta-feira, o preocupou. Foi ao banheiro escovar os dentes e viu-se incomodado pelo odor da lixeira, que transbordava. Ao contrário da louça, aquela tarefa não podia esperar, julgou. Deu nó na sacola, juntou com os resíduos da cozinha e abriu a porta.

– Ah, aí estão vocês – disse o rapaz, referindo-se a Jê, escorado na parede da casa e Bê ao lado, fumando cigarro.

– Jamal… meu filho… – chamou Jê.

– Ch-ch-ch! Calma! Deixa ele voltar – sussurrou Bê. Depois, notando que o dono da casa os ignoraria novamente, este arriscou: – Vai nem dizer oi?

O morador da casa parou junto à porta.

– Não adianta. Vocês estão fora, e é definitivo.

Jê, inconformado, quis saber porque da atitude inesperada, pondo-os para fora de casa, sem dar satisfações. Bê só observava.

– Cara… Simplesmente caiu a ficha – respondia Jamal. – Cheguei à conclusão de que não tem espaço na minha vida para vocês.

Jê abriu os braços.

– Mas como assim? Sou bom para você. Sempre fui. Só quero o seu bem. Ensinei coisas boas. Ou não?

Jamal concordou que, de fato sentia-se uma pessoa melhor aos seguir os conselhos de Jê.

– Mas tem ele aí – observou o rapaz, apontando para Bê, que apagava a xepa com o sapato. – Ele me tirou inúmeras noites de sono, desde quando eu era criança. Entrava sorrateiro no meu quarto, rondava minha cama. Quando eu abria os olhos, ele parava, ficava imóvel, camuflado no breu. Eu suava frio de medo, me escondia debaixo da coberta. Chamar os pais? Para quê? Para dizer que o Bê tinha de me deixar em paz?

Bê riu, enquanto acendia outro cigarro.

– Jamal, o Bê chegou a lhe fazer algum mal? Te machucou? Sabemos que não, porque eu não deixei.

– Entrar no meu quarto não é nada? Me perturbar sempre que estava sozinho? Isso é não fazer mal? Depois de os expulsar nunca dormi tão bem. Nunca mais joguei fora quadros, fotos e espelhos, porque o Bê não está mais lá manipulando a minha cabeça. Agora são só quadros, fotos e espelhos e ponto-final.

Jê fez gesto negativo com a cabeça para Bê, que parecia não se importar, ou achava um exagero do rapaz.

– Façamos diferente – sugeriu Jê. – A gente ignora ele, passemos mais tempo juntos e você não temerá mais.

– Percebe o que está dizendo? Enfiar os dois em casa novamente e ter dedicação total a você para não ser atormentado pelo Bê. Qual a vantagem ante deixá-los fora? – refutou Jamal, entrando e fechando a porta. Bê comentou:

– Cara, você é péssimo.

– Ah, é? E você, que só abriu a boca para fumar?

– Quer que eu fale com ele?

– É tudo o que você não deve fazer, idiota. Vou tentar mais uma vez, e você fica quieto.

Jamal atendeu a porta, já sabendo quem batia. Com as mãos juntas, Jé perguntou sobre os planos para a vida eterna:

– É algo a ser considerado, vez que eterno. E você pode escolher onde quer ficar. Pode viver comigo.

– Vocês não vão desistir, não é mesmo? Deixe eu esclarecer uma coisa, você também me tirou o sono. Porque eu nunca sabia se estava fazendo o que você queria. Eu ia na igreja, mas, às vezes me distraia: eu estava errando. Confessava, mas… E se tinha esquecido algo? Errando. Doei o suficiente? Não poderia doar mais? Errando! Entrei no coral, estudei (porque você merece o melhor), mas não fui humilde: errando. Nós estamos certos? E quanto aos que seguem os teus amigos Bú, o Memé, o Pá… Estão errados? O que vai acontecer com eles? E aquela gente toda que cita o seu nome enquanto faz tudo o que você diz para não fazer? Muita coisa para a minha cabeça, sem contar que aceitar você, implica em aceitar esse fumegante dos infernos aí. Não, chega! Estou bem assim, sem ter de andar com uma régua para medir o que é certo e errado, bem ou mal. Respeito as liberdades dos outros e só desejo que respeitem as minhas. Quero entender os porquês, os comportamentos que me desagradam para, assim, não julgar mau os outros. Estou aprendendo ciência, filosofia e história, inclusive para entender como vocês surgiram e como perduram até hoje, e sem prazo de validade à vista. Estou bem assim e é assim que pretendo ficar – finalizou Jamal, entrando e fechando novamente a porta.

Jé soltou os ombros, desistindo. Bê soltou a xepa debaixo da sola e sacou o terceiro cigarro.

– Você volta atrás! – disse Bê.

Jé arregalou os olhos, não crendo no que Bê tinha falado.

– Vai pro infeeeernoo! – respondeu cantarolando Jamal.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

Um comentário em “Jamal, Jê e Bê

  1. Mais uma crônica deliciosa! Desta vez, um tanto insidiosa. Relações em conflito…
    Novos e abreviados nomes, abreviados e fugidios protagonistas.
    Parabens. Portas que se abrem, portas que se fecham!

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