O Penico

Novamente a infância… Novamente as bicicletas…

Ah, as bicicletas. Sempre tem história pra contar sobre as magrelas. Todo mundo tem, até quem não sabe rodar em uma.

O nono e a nona, pais da minha mãe, acho que nunca aprenderam. A mãe conta que uma professora deixava a bike, digo, bicicleta na casa deles para lecionar na escolinha do Rio Maior. Os dois marotos aproveitavam – sem a necessária autorização da proprietária – e se revezavam no selim enquanto o outro empurrava. Diz a lenda, digo, a mãe, que o nono pilotou gravatá adentro (quem conhece o gravatá sabe que não é o melhor lugar para se fazer uma trilha de bicicleta).

Isso foi coisa de roça. Já na cidade um amigo dos tempos de escola desceu por uma estrada sem pavimento na época. Era a Professor Maia, em Orleans. Descida, uma precária pontezinha de madeira e subida forte em seguida. Justificava-se descer a toda velocidade para, depois da ponte, conseguir vencer a árdua subida, ou ao menos parte dela.

Esse amigo, o Éverton, fez o que fazia todo dia, a caminho do trabalho no Ita. Na ponte sempre tinha panelas – aqueles buracos redondos formados pela chuva. Como todo dia, o Éverton se ergueu sobre os pedais e fez movimento de pulo, puxando o guidão para cima, evitando impactos mais duros nos buracos.

Só que naquela vez especificamente, não foi como todo dia. Porque o guidão simplesmente se soltou e saiu fora, nas mãos do cara. Ele passou pela buraqueira praticamente deitado, se equilibrando no selim. Caiu depois de percorridos poucos, mas acrobáticos, metros.

O Kate, grande amigo, foi parceiro em algumas desventuras sobre duas rodas.

Eu tinha uma Monark BMX. Era pesada pra burro, mas tinha pneus balão vermelhos, pintura metálica (inclusive nos aros, um luxo) e freio à disco (que, na verdade era um tambor abraçado por uma pastilha, uma droga).

O Kate era menor que eu e tinha uma Odomo. Eu achava engraçado os aros serem mais largos que os pneus, mas era gostosinha de andar.

Um dos trajetos mais agradáveis era ir até a Coloninha, onde tinha um grande terreno que, mais tarde, abrigaria a rodoviária da cidade. O terreno, bem no centro do bairro, era todo irregular. Provavelmente caminhões de terra foram retirados de outros lugares e postos lá para aterrar.

Decidimos ir com as magrelas até lá. A Coloninha era bem pacata com poucos carros trafegando. Ademais, a gente passava pelo Paredão, que não batia sol à tarde. Era fresquinho e tinha um tanque cravado na parede de pedra, com água fresquinha à disposição.

Chegando no bairro, demos umas voltas e arriscamos passar por alguns morrinhos de terra – grande desafio.

De repente o Kate chega e pergunta: “Visse o penico?”, ao que neguei. Então ele convidou a ver o penico, e eu fui atrás, observando atentamente o caminho para avistar o utensílio.

Ele pegou a calçada e entrou no terreno irregular, difícil de andar de BMX, quando mais de Odomo. Fui seguindo, sempre atento a todo tipo de coisas: pedaços de madeira, pedras, latas, essas porcarias tão comuns em terrenos baldios. E nada do penico.

Havia dois motivos para o interesse em tal objeto: primeiro o óbvio, não tínhamos nada mais com o que se preocupar, somente pedalar e evitar tombos. Segundo, éramos guris, em uma idade que um penico ainda tinha graça, assim como palavrões menores (bunda, peido e por aí vai). Assim, fiquei atento, pois surgiria a qualquer momento naquela trilha.

Fomos rodando, rodando, o Kate quicava no selim, até que saímos novamente na estrada.

“Cadê o penico, Kate?”, perguntei intrigado.

“Já passamos”, respondeu. “Tu não viu?”.

Óbvio que eu não tinha visto. E nunca viria penico algum. Porque o Kate falou “perigo” e eu, provavelmente com as orelhas cheias de cera, entendi a outra palavra. O tal perigo era a trilha toda irregular a qual tínhamos acabado de passar.

O gozado é que eu falava “penico” e o outro, com as orelhas não menos entupidas, entendia tratar-se de “perigo”. Ainda bem que era só uma brincadeira. Em uma situação mais séria, tal confusão auditiva pode até deixar alguém em apuros.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

2 comentários em “O Penico

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