Andar de Bicicleta

Mais que a experiência do aprendizado de andar de bicicleta, memórias. Ao resgatar este texto, percebi quantos detalhes já tinham sido perdidos desde a criação, há alguns anos, até hoje.

Nos tempos de criança, quando não havia as opções tecnológicas de diversão de hoje, adorávamos andar de bicicleta. Mas era andar literalmente, não tinha de ter que ir ao mercado, à casa de um amigo, um destino. A turma toda andava nas ruas em frente à casa, indo de um lado a outro. Raramente se fazia a curva de outra esquina porque nada havia para fazer lá e ninguém para ver. Tinha dias em que umas dez bicicletas circulavam na estrada, ao longo de uns duzentos metros, cada volta com alguma novidade, alguma manobra, tentativa frustrada de andar empinado, enfim (acho que ninguém conseguia esta manobra, eu no máximo umas cinco pedaladas, muito similar ao meu desempenho nas embaixadas com a bola).

A bicicleta era muito querida pelas crianças. E eram simples, sem marchas, com garupa, as femininas tinham a cestinha na frente, os meninos sonhavam com as de bicicross. Predominavam as marcas Caloi e Monark, seguidas por Odomo e Brandani (esta tinha até mola). Sem dúvida era o melhor brinquedo, até a chegada dos videogames. E era tão valorizada que passava de irmão para irmão.

Desde muito pequeno era fascinado pela magrela. Lembro de cada uma que tive, desde os triciclos. O primeiro era tão pequeno que meu pai passava com o Fusca azul por cima, deixando-o como uma aranha morta na entrada da garagem. Só recordo da cor, era azulzinha, não lembro de andar com ela, somente do pai chegando brabo e dizendo para levá-la na oficina do Vilsinho para soldar o guidom pela décima vez.

O segundo foi um modelo de triciclo inusitado. Lembro da minha irmã mais velha, a Mity, contando como era o brinquedo, dias antes do tão aguardado Natal. Tratava-se se um triciclo alaranjado com uma espécie de caçamba (vista de lado, a caçamba era triangular), e recordo da travinha de metal abaixo do selim, que prendia a caçamba.

Em seguida viria a primeira bicicleta. A Caloizinha dobrável da Mity, a qual o Valdemar – meu pai – reformou inteirinha no porão da casa de madeira. Às vezes ia brincar atrás da casa e via ele lixando ou pintando o quadro de azul. Enquanto pertencia à Mity, eu era doido pela bicicleta. Andava e corria com ela, mas não embarcado. Segurava no guidom e no selim e circulava com os que já andavam. Meu sonho era andar assim também, mas tinha medo.

Naquela época, paravam lá em casa a Bandi e o Marco, primos que estudavam no Toneza Cascaes. A Bandi me ensinava a andar de bicicleta, segurando no selim até que eu andasse sem apoio nenhum, este era o método. Um vizinho da frente, o Hélio Junior, aprendeu sozinho, tentando e caindo como deve ser, na bicicleta de não sei quem, mas eu fui privilegiado por ter alguém me ensinando na autoescola infantil. Penso que não deveria ter este privilégio e deveria ter passado pelo ritual como a maioria.

A Mity andava com a bicicleta, vinha da rua que era mais alta em relação à entrada da garagem, e entrava ainda em curva no carreiro de areão socado onde passava o Fusca. A entrada tinha um moerão de concreto de cada lado – mais pareciam grandes vigas – onde prendiam-se as dobradiças do portão de madeira. A Mity vinha em velocidade, iniciava a curva e entrava rápida, firme e segura no carreiro, uma perfeição de pilotagem que eu admirava e invejava. Queria fazer igual, mas ainda não sabia andar sozinho.

A Bandi passou uns dias me ensinando, mas eu me cagava de medo quando ela largava o selim e eu andava sozinho uns metros até perceber o abandono. Começava a chorar e implorar para ela segurar de novo porque senão eu ia cair, ainda que estivesse pedalando e me equilibrando. “Mas tu já tá sabendo andar, não tá vendo?”, ela dizia. Explicava que eu tinha andado vários metros sem que ela segurasse e que eu tinha andado direito, mas eu não acreditava. Novas tentativas e em todas eu ficava virando a cabeça para ver se ela estava guinchada na bicicleta ou se estava só correndo atrás. Assim não tinha jeito, olhando pra trás a toda hora não dava para guiar. Retrabalho para a Bandi, que teve de me convencer a não olhar para trás e de que eu estava realmente aprendendo, podendo andar sozinho.

Passaram-se os dias e eu já me convencia de que estava aprendendo. Era seguro em andar reto. A única exigência era de que a Bandi ficasse próxima, caso a gravidade voltasse a fazer seu papel. Não demorou a ficar monótono. Era segurado somente para fazer as curvas no fim do circuito de duzentos metros, a magrela já não deixava dois rastros serpenteados no areão da rua e sim um único predominantemente reto. Estou pronto, era o pensamento. Já sei andar de bicicleta. A Bandi só segurava para fazer a volta, e assim o fez no fim da rua, em frente à casa do Celso. Na volta experimentei pedalar mais forte e o resultado foi inesperado e surpreendente. O que eu imaginava uma aventura, algo de maior grau de dificuldade, revelou-se o oposto. Ao correr a bicicleta ficou mais firme, o controle ficou mais fácil, bem melhor que andar devagar. A Bandi corria e gritava para esperar, mas eu estava convicto de minha teoria da velocidade. Agora só olhava para trás para ver ela correndo toda desengonçada e desesperada, nada de gritar “segura, Bandi”.

Estava chegando à frente de casa e uns guris jogavam bola ao lado da entrada da nossa garagem. Todos pararam e passaram a espectadores. Lá vinha eu, finalmente andando sozinho de bicicleta. Quando vi a entrada da garagem já sabia o que fazer. Era tudo o que eu queria, entrar rápido, como a Mity. Só faltava isso para estar completo. Já sabia que para andar era necessário correr, correr cada vez mais rápido (mesmo que não lembrasse de ninguém pedalando feito louco sempre que andava de bicicleta). Agora era acertar a entrada e alcançar a glória. Iniciei a curva e fui alinhando ao carreiro direito. Mas algo saiu errado. Eu queria o carreiro direito, mas fui direto para o mourão de concreto, erro de alguns centímetros. Foi um tombo muito engraçado onde os espectadores gozaram muito. Recordo de ter saído do selim e montado no guidom, depois o óbvio, caí pro lado, chorando.

A Bandi chegou ofegante e me ajudou a levantar, repetindo o que gritara antes ao ficar na poeira: “tu ainda não sabe fazer curvas.”

Esta foi a lição das aulas seguintes. Não demorou para pegar o jeito e daí sim virar um menino que realmente sabia andar de bicicleta. Entrar pelo carreiro do Fusca virou algo banal, se bem que uma vez espremi o mindinho entre o pedal e uma pedra de muro.

Como ciclista recém-formado passei a ser um estorvo na vida da Mity, um verdadeiro pesadelo. Ela não podia tirar os olhos da bicicleta que eu a furtava e só devolvia quando ela me alcançava.

Esta bicicleta dobrável seria minha no Natal seguinte. O pai a reformou inteirinha, a equipou com escova nos eixos, canudinhos nos raios, buzina, badanas e até antenas nos parafusos da roda dianteira. Hoje é jeca, mas acho que era tudo o que se podia encontrar em matéria de acessórios ciclísticos em Orleans. E, pra mim, aquilo foi o máximo porque eu simplesmente amava aquela bicicletinha. Quando a vi na sala na véspera de Natal, na entrega dos presentes, a felicidade foi total, pois já tinha visto o pai dando o trato nela, mas não imaginava que ficaria linda daquele jeito.

A Mity, por sua vez, ganhou uma Berlineta, versão Caloi da Monareta da Monark. Eu a roubaria também mais tarde, mas por enquanto ainda estava embriagado com o grande presente.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

Um comentário em “Andar de Bicicleta

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