Roubando Goiabas

Este texto foi publicado no livro Khronikôtos, da minha querida mãe, Sueli T. M. Mazurana. Aliás, o texto “Na Banda Estrela do Oriente” também está naquela publicação sob o título “Na Banda”.

Era um tempo em que eu ainda era adolescente, um moleque de, sei lá, uns treze ou quatorze anos, mais provavelmente. Andava sempre com o Fernando do Guaraci, foi o melhor amigo por um bom tempo até que este – o tempo – e circunstâncias deram a estes amigos caminhos distintos.

A gente não se largava. Na verdade, quando eu não estava em casa, estava com o Fernando, tanto que os maldosos diziam tratar-se de namorados, o que nos deixava revoltados – preocupação besta de moleque, pois hoje sinto-me privilegiado em ter passado ótima fase da vida numa amizade tão bacana e verdadeira tal qual a cultivávamos. Mas namorados? Eu heim…

Bem, naturalmente a gente bolava e fazia muita coisa juntos – menos estudar, isso eu não fazia e me dava mal; Fernando não estudava, mas sabia colar. Jogávamos o videogame CCE dele (jogos Atari, viciava como droga), comíamos frutas direto do pé (carambola e jaboticaba, principalmente), passávamos a tarde toda na costeira andando de bicicleta, fazíamos estórias em quadrinhos dos fatos marcantes do cotidiano (não podia ver a estória do outro até estar pronta, levava uns trinta minutos, daí a gente rolava de rir, quase mijava, com o resultado dos desenhos).

Além de estudar juntos no colégio fizemos outras coisas, como ingressar na Escolinha de Apoio do Montanha e entrar na banda Estrela do Oriente: eu maltratando o sax, ele rachando a palheta do clarinete.

A banda tinha sede atrás do prédio do sindicato rural de Orleans. A molecada chegava logo depois do almoço e, enquanto o maestro Brás não chegava, ficávamos falando besteiras, criando brincadeiras e desafios uns aos outros e tirava um para ser sacaneado (normalmente alguém ia embora chorando, quase sempre um menino que estava lá para entrar para a banda, daí se resolvia o problema da falta de instrumentos para todos; seleção natural é isso aí!). E havia também duas goiabeiras enormes ao lado do sindicato, atrás de uma casa de dois pisos – na parte de trás, porque a frente era um piso nivelado com a rua, pois ficava num barranco.

Então, se o Brás não chegava, a senhora dona da casa tinha de torcer para ficarmos sossegados na sede, brincando e zoando a vítima que iria embora chorando porque, senão, a alternativa mais óbvia era roubar umas goiabas. A mulher, a quem dizíamos ser a “velha”, não podia ver senão saía de casa gritando como louca. Não era fácil uma dúzia de guris nas goiabeiras sem serem percebidos. A velha vinha, a gente descia muito, mas muito rapidamente aproveitando a superfície lisa do tronco e galhos. Às vezes a velha não vinha, talvez estivesse dormindo ou fazendo qualquer outra coisa. O fato é que, assim que alguém estivesse já empanturrado de goiaba, este gritava “tem gente roubando goiaba” e, ao som de injúrias da velha e proferidos também pelos colegas de delito ainda não satisfeitos de goiaba, todos desciam e até caíam para correr em seguida para a sede.

Certa vez o Fernando e eu fomos na banda. Não vou recordar agora o que houve, ou melhor, não houve. Acho que não teve aula naquele dia e não tínhamos sido avisados – que injustiça, só nós dois não o fomos. Para não perdermos a viajem, tratamos de pensar no que fazer naquela tarde. Com duas goiabeiras carregadas de frutos maduros não foi difícil decidir. O Fernando já caminhava para lá, mas o convenci a fazer diferente. Ainda que furtar fosse emocionante e, como já disse o Chico Bento, “goiaba roubada é mais gostosa”, havia o risco da velha nos descobrir antes de subir no pé, e aí já era.

Sugeri que fôssemos até a casa e pedíssemos permissão, como bons meninos. A velha não se negaria diante da nossa honestidade; não teria incômodo com moleques lhe roubando. Ademais dois meninos não dariam conta de comer todas as goiabas, embora éramos capazes de devastar uma pequena goiabeira numa tarde apenas.

Fomos até a frente da casa, bati à porta. Nada. Bati de novo: nada. Talvez não houvesse ninguém em casa. Decidimos ir na parte de trás, já que ela costumava nos flagrar como macacos nos galhos quase sempre, indicativo de que a moradora costumava ficar na cozinha. Na parte de trás da casa, de dois pisos, subimos uma escada até uma porta nos fundos. A porta era dupla, daquelas cortadas na metade, de modo que dá para abrir só a parte de cima ou a de baixo. Bati na porta. Nada. Bati mais forte, ouvimos uma voz vindo do piso inferior da casa. “Quem é?”, perguntou a velha, e “Já vai!”, logo em seguida. Percebemos uma pequena janela logo abaixo da plataforma em que estávamos, uma janelinha típica de banheiro, a luz estava acesa e vapor de chuveiro saía por ela.

Ela está no banho, concluímos. Parecia inconveniente, mas, como ela disse que já vinha, decidimos continuar esperando. Não foi preciso bater mais na porta, pois a cada tanto ouvíamos “já vai”, ou “já tô indo” e, ainda, “não vai embora que já tô indo”.

A gente ficou conversando outras coisas enquanto esperávamos e ouvíamos o disco furado dizendo que já vinha. O “já vai” e o “já tô indo” duraram bem uns cinco minutos. Percebemos os movimentos da anfitriã fechando o chuveiro, se secando, apagando a luz do banheiro, fazendo alguns barulhos dentro de casa, tudo acompanhado por “já vais” e “já tô indos”.

De repente a trilha sonora mudou para “Quem é..? Quem é..?”, mas não víamos a mulher. A voz parecia distante da porta. Como a fresta que dividia as partes da porta era generosamente larga e a mulher parecia estar em outro cômodo, arrisquei uma espiada. A imagem era forte. Não sou ovo, mas fiquei chocado. Parecia um fantasma, ou melhor, uma fantasma, totalmente despida. E que coisa mais branca e… feia! A mulher achou que batiam à porta da frente da casa e foi lá verificar, sem abrir a porta, tapando somente a parte da frente com a toalha e, para meu desespero, deixando a retaguarda desprovida. Achei muita graça e, aguentando o riso com dificuldade, ofereci a espiada ao Fernando que não entendeu na ora, mas foi só olhar pela fresta para se ver na mesma situação minha, com a mão na boca, soltando ruídos devido à gargalhada presa sob pressão. Assim que nos recompomos, respirei e bati na porta para que ela percebesse onde estávamos na verdade. A janela ao lado da porta se abriu, a velha de cabelos molhados e embaraçados põe a cabeça para fora, nos olha, adota uma feição de dar medo em polícia e pergunta:

– O que vocês querem?

– Dona – respondi –, podemos apanhar algumas goiabas?

Ela arregalou os olhos, quase pondo-os para fora das órbitas e esbravejou:

– O quê? Me tiraram do banho para pedir goiaba? Vão já embora daqui seus…

Eu não recordo bem do que fomos xingados, mas dava um time de futebol, com titulares, reservas e comissão técnica. Enquanto ela escalava o time, fomos descendo os degraus, decepcionados. E revoltados, pois ela não podia ter tratado a gente assim, já que fomos uns anjinhos.

Não fomos embora. “Agora vamos roubar goiabas” disse ao Fernando, que disse somente “é, é”, mas se expressou como “agora sim, voto em ti para prefeito”.

Voltamos para de trás do sindicato e, espreitando pelo canto do prédio, verificamos se a velha não estava cuidando as goiabeiras. Como foi ingênua. Achou que tínhamos ido embora, derrotados.

Em segundos já estávamos trepados nos galhos, arrebentando as goiabas tal como pássaros esfomeados. Um olho na goiaba, outro na casa, a poucos metros.

Barriga cheia, bolsos transbordando, estávamos satisfeitos com o delito. Daí larguei o grito: “Tem gente roubando goiaba!”. Claro, o serviço tinha de ser completo. A velha começou a esbravejar na janela, foi à porta e deixou claro que vinha pra cima da gente. Rindo muito descemos quase que caindo. Corremos para a rua e caminhamos para a casa do Fernando, comendo as goiabas que estavam nos bolsos.

Fomos comentando acerca da aventura, principalmente da bunda branca, totalmente fora dos planos.

Éramos jovens, não pensávamos no bem estar alheio. Guris daquela idade só pensam em aproveitar a vida, fazer história, ter algo para contar no futuro. Pedir licença para apanhar umas frutas foi um lapso de responsabilidade, tentativa de se comportar como adultos, tal como nossos pais desejavam: os filhos exemplares. Foi um ponto positivo, subtraído logo depois, com a decisão de furtar. Mas qualquer um que conhece ou passa a conhecer esta história sabe que não houve maldade. Sabe o que é ser adolescente e, quiçá, tem muitas histórias de “heroísmo” como esta para lembrar.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

Um comentário em “Roubando Goiabas

  1. Eis aí um feixe de memórias…
    Como parece fácil para o autor usar o método “memória-puxa-memória”! Fica um gostinho de saudade… mestre na observação e consequentemente nos detalhes, seu texto flui dinâmico, alegre, cômico. Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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