Na Banda Estrela do Oriente

Orleans tinha uma banda musical chamada Estrela do Oriente, não sei se ainda existe: ela morre e ressuscita a cada tanto, no momento deve estar morta, aguardando nova vida. Era uma banda de metais basicamente, com alguns instrumentos de palheta como clarinetes e saxofones, acompanhados por tambores.

A banda era composta por pessoas – leia-se guris – da sociedade, filhos de pequenos empresários, músicos, vendedores, professores da rede pública, autônomos e por aí vai. Nunca soube ao certo como se ingressava na banda, o que lembro é que vez ou outra aparecia algum moleque interessado, mas só era admitido se tivesse o próprio instrumento, vez que os da banda, mantida pela prefeitura, já tinham “dono”. No máximo o infeliz compartilhava o instrumento com o “dono”, levar pra casa para treinar nem pensar (para alívio dos ouvidos dos familiares).

Ingressei por incentivo indireto do primo China (último apelido, o que vingou, mas antes era Leque). O China é um artista, aprendeu violão aos dez, doze anos e apareceu do nada tocando, para inveja dos primos ao ver como tocava e cantava bem com o irmão caçula, o pai e a mãe. Numa dessas ele apareceu tocando clarinete. Foi num Natal ou Ano Novo no Rio Maior. Caramba, como ele conseguia tocar aquele instrumento tão cheio de botões? Sim, eu tinha inveja daquilo e tenho certeza que os outros primos de mesma idade também tinham, de modo que íamos à forra cada vez que uma nota saía errada, estridente de doer ouvidos (clarinete é difícil mesmo, acreditem).

Assim me interessei em entrar na banda, e o China me levou na casa, digo, sede, que não passava de uma casa velha atrás do prédio do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Orleans, construção onde também funcionava a rádio Guarujá.

O primeiro maestro que tive foi o Bráz, um cara jovem que as vezes ensinava teoria musical, sendo noventa e cinco por cento das horas/banda de ensaios. A gente tocava Mérica-Mérica, Barracão, Asa Branca e dobrados como Souza e Silva, General da Banda, Cisne Branco dentre outros. Detalhe: eu sabia pouco ou quase nada de teoria musical. A coisa requer matemática e esta sempre foi minha cruz em se tratando de vida estudantil – embora viesse a colar grau em Administração, trabalhar como bancário e atuar na área de TI.

Voltando à banda, eu tocava “de ouvido”. Não, não era nenhuma habilidade incrível de enfiar o bocal do sax na orelha e conseguir alguma nota – coisa digna de programas domingueiros de auditório. Simplesmente eu tocava a melodia porque a conhecia. Quando o Bráz trazia uma nova partitura e colocava na minha estante, eu ficava olhando para ela e me perguntando “e agora?”. Daí, fazia uma ou outra nota fingindo que estava tirando a música, até que algum trompete ou outro sax começasse a ensaiar e eu ia atrás copiando a melodia, normalmente popular, para minha sorte.

O problema era quando a música não era conhecida, pelo menos para mim. Tinha de ouvir os colegas tocarem até eu pegar, só que não estamos falando de músicos virtuosos. Lembremos, ainda, que na época não havia internet e o repertório menos conhecido indubitavelmente não fazia parte das discotecas dos pais. Capitão Caçula e Zaratustra só ouvi na banda, em filme (a segunda) e, claro, bem tardiamente na internet.

Tocar de ouvido não é um bom negócio a quem o pratica sem assumir. Cedo ou tarde acaba sendo descoberto. Aconteceu comigo. Aquarela do Brasil. Já estávamos no terceiro maestro, o Seu Nélio, na terceira ressurreição da banda na minha era. Seu Nélio vinha pós-Zezinho Nunes, que Deus o tenha. Era trompetista que veio, se não me engano, do Pará. Um senhor engraçado, cheio de histórias. Ele trouxe um repertório novo e fiquei preocupado com meu segredinho. Mas não deveria ter maiores problemas, era só tocar o que eu conhecesse, senão era só ouvir os outros tocando uma ou duas vezes até me familiarizar. Simples assim. O Seu Nélio veio e colocou a partitura na minha estante: Aquarela do Brasil, uma velha conhecida. Fiquei tranquilo, mas comecei a notar algumas coisas estranhas. Havia alguns buracos na partitura (o papel era novo, estou falando de compassos sem notas na música). Também as notas eram novidade, de cara estranhei quase todas. Olhei o título de novo para confirmar. Era sim a Aquarela, só que, pela primeira vez minha estante abrigava um acompanhamento, uma segunda voz em vez de uma melódica. “Seu Nélio, quero uma melodia porque não sei ler partituras.”? Claro que não faria um fiasco desses. Mas era uma segunda e eu não tinha ideia de como executá-la (executar no sentido de tocar a música, e não de tocar fogo). Se não conhece, ouve outro que conhece. Fingi que soprava e fiquei atento: nada. Fora os trombones, bombardinos e sax-tenor, ninguém mais acompanhava. Acho que eu era o único sax-alto no acompanhamento. E os trombones faziam algo similar? Não, era algo como pá, pá, pá ou tó, tó, tó intercalando com pausas de mesmo valor o tempo todo. Também não dava para fingir que tocava pois ficava nítido; nos ensaios a gente ficava muito próximo um do outro.

Foi quando num ensaio geral para apresentação, chegamos na Aquarela. Tinha de tocar alto, com fôlego e, como eu já vinha por dias tocando minha segunda inventada sem que ninguém reclamasse – pra mim, todos tinham caído direitinho – mandei ver no ensaio geral. O Nélio parou tudo logo no início da canção. “Vamos de novo.” Nova introdução e o maestro interrompe novamente. “Tem alguma coisa estranha aí. Vamos de novo.” Tal como uma luva, o chapéu me serviu direitinho. Aproveitei que ainda não tinha sido descoberto (não como talento, sim como fraude), me encolhi e tratei de tocar bem mansinho para não ser ouvido por ninguém. “Pára, pára. Tem alguma coisa errada, alguém tá tocando errado. Vamos de novo que eu quero saber quem é”. É terrível se saber que estão falando de você uma coisa dessas, e acho que todo mundo, mas todo mundo mesmo já passou por uma situação dessas. Introdução, primeiros acordes, melodia e o inevitável: colegas dedos-duros parando de repente, apontando para você e gritando “é ele que tá tocando errado”, “pô, o que tu tá fazendo” e “que porra de música é esta”. Enrubescido de vergonha tive reação inesperada até para mim mesmo. “Que tocando errado o que, vocês não estão vendo que eu faço segunda? Olha aqui, ó”, disse mostrando a partitura. Alguns colegas não caíram, fizeram cara de “tamos de olho, heim”. O Seu Nélio, lógico, também não caiu e por compaixão trocou na ora minha partitura por uma melódica. Só que o mais interessante é que a maioria caiu na conversa, ou seja, sabiam o mesmo que eu sobre teoria musical. Provavelmente foram solidários imaginando se estivessem na minha pele naquele momento.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

3 comentários em “Na Banda Estrela do Oriente

  1. Bom vamos lá, O Boy me convidou para participar da banda, lembro bem daquela casa atrás do sindicato, onde era a sede. Sempre chegávamos uma dezena de minutos antes das aulas para subir no pé de ameixas e encher a barriga. A sede da banda também já foi no Centro Social Lauro Pacheco, salvo engano era esse o nome. Ele ficava ali naquela “ruazinha” que fazia a esquina da Lojas Zomer. A sede ficava no final da rua, no penhasco do Paredão. Lembro muito bem de um dia que cheguei por lá, era um dos meus primeiros dias na banda. Logo que cheguei pensei, “vou escolher um instrumento massa, que me dê moral, etc.”; até então minha experiência era tocar flauta doce, no basicão mesmo.

    Cara, quando cheguei lá, na parte de cima da sede… vi o maestro Bráz grudado na orelha do China, apertando, dando aquele beliscão, enquanto o coitado tentava no clarinete acertar umas notas da escala musical. Aí eu pensei, fudeu!!!!

    Então, já desisti de “escolher um instrumento topizeira das galáxias” e lá veio o Bráz e me deu um triângulo (PQP) para iniciar na carreira musical. Tudo bem, eu era asmático na época… mas um triângulo? Porra, de fuder viu? Aquilo ali foi o começo do fim pra mim, cara… bizarro ficar aprendendo a tocar aquela desgraça. Mas te digo, foi necessário, pra pegar o compasso, o ritmo… no fim, “me aposentei” tocando trombone de pisto.

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    1. Kkkkkkkkk… Só não lembro se o episódio com o China foi na sede dos idosos (essa aí quase derrubando o Zé Diabo dos andaimes) ou se foi na sede antiga, onde tenho uma boa história sobre roubo de goiabas!

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    2. Muito bacana estas lembranças. Poderíamos escrever um livro de milhares de páginas se juntássemos as histórias de vários que na Banda Estrela do Oriente passaram. Felizes daqueles que por lá estiveram. Bons tempos. Muitas recordações! Grato pela partilha Krauser.

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