As Ameixas

Mais uma dos tempos de infância… Despertou nostalgia quando foi escrita uns anos atrás e novamente agora. Para referência, saímos de Cuiabá em 2007.

Quando saí da casa de meus queridos pais em Orleans e fui morar em Campo Erê – cidade que jamais sonhava um dia conhecer (quanto mais morar) – foi tudo uma maré de tranquilidade. Era escrivão de polícia e o salário era muito bom para os padrões da cidade. De cara comprei um Fiat Uno usado e passei a guardar dinheiro em poupança. Sequer aluguel paguei, já que morava na casa de madeira ao lado da delegacia, destinada à Delegada, mas desprezada por ela. Sorte a minha.

Depois morei em São Lourenço do Oeste, onde o custo de vida era praticamente o mesmo, só tive que pagar um pequeno aluguel. De novo, não dava para reclamar.

O Banco do Brasil veio me convocar já no último ano de validade do concurso que eu prestara em 2001. As vagas eram para o Tocantins, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Após conversa com a então namorada, a Grasi, decidimos sair do nosso amado Estado para morar em um desses três. Algumas pesquisas e opções oferecidas pelo banco, fomos residir em Cuiabá.

Enquanto lá estivemos, muita coisa legal aconteceu. Ficamos noivos e casamos (em Orleans, mas residindo nessa capital), início de novas carreiras, primeira vez morando juntos, novas amizades, primeira crise de cálculo renal. Tudo era novidade, boas e nem tanto. Um revés, tenho de dizer, foi o custo de vida. Não era esse fim-de-mundo, mas de onde eu vinha os preços eram mais amistosos e nossa renda um pouco melhor (comecei no banco ganhando praticamente metade do que como servidor público em Santa Catarina).

Jamais vou esquecer quando fui no mercado Modelo, a uns mil e quinhentos metros de casa, e me deparei com uma bandeja de isopor com ameixas. E agora vou explicar melhor uma coisa para evitar protestos. Eu, meus parentes do Sul e mais um bocado de gente conhecemos pelo menos três tipos de ameixa: aquela vermelha que fica preta – tem que ter no Natal, senão não é Natal, para muitos a única ameixa que existe – a ameixa em conserva (que todos sabemos tratar-se da mesma frutinha cítrica na versão passa) e a ameixa amarela. Não aquela amarela que não passa da vermelha que fica preta na versão amarela! Estou falando da ameixinha que por vezes é encontrada até nas ruas de algumas cidades lá no Sul. Habita alguns matos e quintais das casas (não raro nesses dois locais ao mesmo tempo, porque tem gente que parece nunca ter visto uma foice na vida). Lá no Rio Maior chamavam suzin que, traduzido do dialeto italiano para o português poderia bem significar “fruta do mato, azeda pra porra que deixa os dentes sensíveis, como laranja crava verde”. Insistia em comer essas bolinhas peludas na esperança de encontrar alguma tão doce quanto as ameixas do Seu Bruno. Rapaz, aquilo que era ameixa! Crescia bem, tomava o formato de uma pera e, se estivesse alaranjada, podia roubar que era uma doçura. O Seu Bruno era gente boa, vez ou outra deixava a gente apanhar algumas. Num ano eu subia no pé bem cuidado umas vinte vezes. Três eram por consentimento, as demais às escondidas, às vezes flagradas, outras sem deixar vestígios, a não ser as sementes na grama, que faziam o pai do Kate meter tiros de chumbo nos pobres morcegos.

Agora, pode parecer muita malandragem minha e da gurizada da vizinhança, mas o Bruno também pedia por isso. As laranjeiras de diversos tipos e a ameixeira eram muito bem cuidadas. Sério mesmo. O caule da ameixeira era um absurdo de limpo. Não sei se ele escovava todos os dias para ficar daquele jeito. Era tão bom de subir que, mesmo sem frutas, adorávamos subir só para ficar no alto, como papagaios. O melhor dia para o ataque era domingo.

Foi num desses domingos que não sei porque cargas d’água não fomos ao Rio Maior (aí, suspeito pode ter sido um sábado… enfim). Estava em casa, depois fui na costeira, e foi quando vi o Chevette azul indo para Palmeira. Nada de mais, por enquanto.

Entediado, fui à casa do Calinho, mas ele ainda estava almoçando. Enquanto isso, dei uma volta pelo pomar. Era bem legal, tinha um galinheiro de onde sequestraram o peru do Seu Carlo, laranjeiras, essas coisas que nos matam de saudades quando se cresce e se vai morar num apartamento de sessenta e três metros quadrados. O quintal do Calinho era vizinho ao quintal do Kate, um lugar meio escondido entre as árvores frutíferas, vários metros de distância das casas dos proprietários e da rua. Olhei na direção da casa do Kate. Sem movimento, pois tinham saído para visitar os  nonos. Então meu olhar travou na ameixeira. Que grande oportunidade. Lá estava ela, tão desprotegida, tão verdinha com pontinhos amarelos deliciosos. A poucos passos de onde eu estava. Só que lá era mais aberto, poderia ser notado por alguém da rua. O negócio era ir com cautela até a subida na árvore porque, uma vez na copa, estaria oculto de todos os ângulos e poderia desfrutar da sobremesa tranquilamente.

Pular o muro, nenhuma novidade. Era uma época em que pulávamos até quando não tinha muro e quando houvesse um portão escancarado ao lado. Continuei pelo chão de terra até atrás da garagem, ponto não visível da rua. Pronto. Mais uns metros e alcançaria meu objetivo.

Aos pés da árvore dei início à subida, já rastreando as melhores frutas. Tinha certeza do êxito da missão.

Sabe aquela sensação de vergonha misturada com “to fudido”, muito comum na infância e na adolescência? Eu estava no primeiro galho quando a Gladis gritou lá do outro lado da rua, da casa da Dona Maurília: “O Boy, tu não tem vergonha? Roubando ameixa?”

Larguei o galho e fiz o mesmo caminho pro muro e pro quintal do Calinho. Estava morto de vergonha e de cagaço, pois havia o grande risco de meus pais ficarem sabendo que o filho era um meliante. Sério, aquilo acabava com o meu domingo e não tinha como reverter. Mas todos sabemos que tem como amenizar uma situação como essa.

Voltei pra porta da cozinha e o Calinho, enfim, estava almoçado. Ainda limpando a boca com o braço, foi me receber. Senti o quanto ficou surpreso ao ver que eu já tinha planos pra tarde que se iniciava. “O Kate foi pra Palmeira”, disse a ele. Isso queria dizer que a família toda tinha saído, como de costume. E conclui, “a ameixeira está carregada, só esperando. Vamos lá?”

“Vamos”, respondeu o Calinho. Recordo claramente da cara dele. Ficou excitado de fato com a aventura inesperada, roubar e ainda se deliciar com as frutas roubadas.

Fomos até o ponto onde eu estivera há poucos instantes e passei o plano. “É só pular o muro, ir até atrás da garagem e subir no pé”, expliquei.

“E não tem ninguém?”, perguntou. “Não, eu vi quando eles saíram”.

O Calinho pulou o muro e foi se esgueirando até a garagem. Eu disse para ele continuar que eu já ia, era só o tempo de arrumar a tira da sandália que tinha soltado.

Fiquei observando o Calinho chegar na ameixeira, são e salvo. “Caramba”, pensei. “Será que com ele não vai dar certo? Só faltava essa”, era muito azar pra mim.

Mas a irmã do Kate era guardiã implacável. Deu o mesmo alarme só mudando Boy para Calinho, quando este se encontrava desajeitadamente pendurado no primeiro galho, em posição horizontal, feito um salame.

Largou da árvore e correu em linha reta pro muro saltando canas, babosa e cidreira, pulou rapidinho para o seu território, se abaixou e, tentando ver onde a Gladis estava, comentou “A Gladis tá aí, ela não foi, cara.”

Tão assustado que estava, nem me reparou. Eu já vinha afinado de tanto rir desde o momento em que a Gladis começou a gritar pra ele.

Só quando eu recuperei o ar e disse “Eu sei” foi que ele percebeu o que acontecera.

“Palhaço, tu sabia, né” falou ele. Expliquei que acabara de passar pelo mesmo constrangimento e, em tom de gozação, disse que só queria ver se funcionaria novamente tão perfeito flagra. Continuamos bem o resto do domingo.

Veio tudo isso à mente enquanto observava a bandeja com não mais de uma dezena de frutas na gôndola do Modelo. Não tinha a menor intenção de comprar algo que passei a infância “roubando” e que, se duvidasse, ainda estava à disposição lá no Bruno, aguardando minhas férias. Mas, por acaso, dei uma olhada no preço e mal pude acreditar: dezesseis reais, e tinha o nome nespera, ou néspera, nêspera, sei lá. O que eu tinha certeza mesmo é que eram as mesmas frutas do Bruno e, seja lá qual for o nome, desde então passei a entender porque o pai do Kate não gostava muito de dividi-las, quanto mais tê-las roubadas.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

3 comentários em “As Ameixas

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