O Eclipse

1994 foi um ano que movimentou bastante os sentimentos da gente aqui do Brasil. Perderíamos Airton Senna e ganharíamos o tetra. E também teve o eclipse total do Sol.

Ok, confesso que tive de pesquisar a data na internet, mas isso é o de menos porque a imagem, o momento, jamais deixaram minha memória.

Na TV o evento era anunciado com vários dias de antecedência. Todo mundo sabia que estava para acontecer um eclipse e todo mundo ficou sabendo o quão raro era o evento. Lembro que não fazia muito tempo minhas irmãs e eu tínhamos visto pela primeira vez um eclipse total da Lua, e já achamos bem legal.

A imprensa, além de divulgar o fenômeno, ajudou com dicas sobre os cuidados durante a observação, como por exemplo, não olhar diretamente, fazendo uso de algum filtro ou – melhor – utilizando um pequeno espelho para refletir a luz do Sol na parede (o reflexo tinha que ficar em forma de círculo, daí seria possível acompanhar a evolução).

Eu trabalhava num dos escritórios da Loja Zomer de Móveis, no centro de Orleans, e todos estavam na expectativa. Havia, claro, uma preocupação acerca do clima. Naquela região, particularmente, as chuvas são bem distribuídas no ano, sendo quase impossível uma previsão mais certeira (e, vale lembrar, uma única nuvem encobrindo o sol bem na hora do espetáculo e já era). Ademais, em 1986 o cometa Halley criou uma expectativa gigantesca, frequentava comerciais e programas de TV diariamente, meses antes da passagem. Até o programa Balão Mágico ganhou o personagem Halleyfante e uma fabricante de lâmpadas fez promoção: se a lâmpada começar a piscar, você ganhou uma luneta! Mas… ninguém viu o tal cometa e nova chance só dali 76 anos.

Bem, voltando ao prédio da Zomer, o pessoal nem trabalhava direito naquela manhã. Alguém descobriu que dava para usar espelhos maiores, que tinha nos banheiros, para refletir na parede do prédio ao lado. Logo a parede branca estava pintada com uma dezena de meias-luas luminosas. O eclipse estava em andamento. Ah, sim! Nâo faltaram chapas de raio-x e vidros de máscara de solda.

Percebia-se o dia com uma tonalidade diferente. Tudo meio amarelado, lembrava manhã cedo ou fim de tarde. E em tudo o que era porta tinha gente posicionando uma chapa diante dos olhos para avaliar quanto ainda faltava. Estava quase. No nosso escritório todo mundo foi para junto das janelas. “Tá quase… tá quase…”, diziam. Não dava para olhar diretamente, mesmo sendo “quase”. Usei a chapa novamente, não vi nada. Mas ouvi vozes maravilhadas. Baixei a chapa e lá estava: o anel de brilho branco num céu completamente negro em redor, um espetáculo indescritível que imagens não conseguem reproduzir. “Que coisa mais linda, gente!”, disse a dona Zuleidinha, nossa chefe. Impossível sair da hipnose, mas pedi desculpas ao céu e desviei os olhos. Quis ver como andavam as coisas aqui na Terra. Parecia um início de noite, só que com todos os horizontes claros e azulados. As luzes dos postes acenderam-se, enganados. Também pardais e andorinhas deixaram a labuta e até os galos gritaram que não foram pegos de surpresa. Em casa a mãe contaria algo parecido sobre a passarinhada voando rápido como se tivessem perdido a hora, além dos gatos cruzando as ruas indo para a noitada.

“A festa acabou!”. Esta frase remete aqueles eventos em que todos estão de boa até que alguém armado chega e diz a frase, causando correria a dando por encerrado de forma abrupta o evento. Pois foi mais ou menos desse jeito. Assim que a Lua permitiu, através de uma ainda minúscula fresta o sol disse “a festa acabou” jogando seu brilho atômico nos olhos, fazendo todos virarem a cara. Logo, o dia voltava à normalidade. Os passarinhos pararam de cantar e ressurgiram das árvores e telhados – sequer esquentaram os ninhos. Os galos, se tivessem relógios, estariam bicando-os e acertando-os com as esporas. Os gatos pararam no meio da rua, flagrados pela luz do dia, e olhavam para os lados enquanto balançando suas caudas, confusos, dando meia-volta para retomar o que estavam fazendo.

As pessoas ainda conversariam sobre o eclipse o resto do dia. Por dias, na verdade. Porque o eclipse solar de 1994 foi incrível, uma joia no céu. E a gente sabe que teve sorte e sabe que será difícil rever o espetáculo.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

Um comentário em “O Eclipse

  1. Lembro bem desse dia, eu e sua mãe (Dona Sueli) acompanhamos juntos o fenômeno. Estávamos ali na esquina, onde meu pai “fincou” aquela pedra para os caminhões não quebrarem a calçada. Estávamos utilizando “chapa” (possivelmente de pulmão) como proteção dos olhos.

    Quando o fenômeno começou a ocorrer meu gato Garfield vazou que nem louco; os passarinhos começaram uma barulheira do nada, foi legal.

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