As Guerras

A crônica abaixo deve ser boa, porque já tem uns anos que foi escrita e, ao resgatá-la hoje, ri um bocado.

Às vezes fico pensando como a gente era feliz quando criança. E imagino estas últimas gerações e as futuras, tão ligadas na tecnologia. Fora alguns esportes, me parece não haver outras atividades recreativas onde as crianças possam desenvolver sua imaginação e criatividade, além de gastar energia, para alívio dos pais que, mais tarde, teriam seus anjinhos dormindo, exaustos e na hora certa.

Acho que são – as crianças – reféns de toda esta oferta de opções, as quais as prendem dentro de casa. Ficam seduzidas pelos jogos eletrônicos sem contar que, não raro, ganham até computadores de presente dos pais sem que seja aniversário, Natal ou 12 de Outubro. Ganham a qualquer hora mesmo, para sua alegria e, talvez, dos pais, também aficionados pelos brinquedinhos mais caros dos filhos.

Concluo que a minha geração foi mais ativa, já que estávamos sempre nos divertindo com brincadeiras diferentes, que pareciam surgir e ressurgir de tempo em tempo. Por exemplo, época da pipa, do arquinho (bastava um vergalhão fino, um ramo de aipim e um retentor de óleo para garantir uns quinze dias de diversão), bicicleta, biloquê, arminha, e é sobre essa que vou falar. Claro, a tecnologia já estava presente em forma de videogames, sendo os mais populares o Atari, Odissey, Dactar e outros. Mas não éramos escravos. Como as demais ondas, durava alguns dias ou semanas, depois os aparelhos iam para a caixa e para cima do guarda-roupas ou debaixo da cama. Hoje em dia, videogames são quase um estilo de vida.

A tal arminha a que me refiro é um termo genérico. Qualquer brincadeira em que se pudesse empunhar um artefato de madeira ou metal, pregado, colado ou soldado, imitando uma arma não tinha um nome. Por exemplo, se a brincadeira fosse de guerra, íamos brincar de arminha. Se fosse de policiais (ou bandidos, que a gente era rebelde), era arminha. Se de caçadores, arminha. Mas antes de falar da brincadeira de arminha, versão guerra, vou logo esclarecendo: sou contra armas de fogo. Naquela época a molecada ganhava revólveres de xerife, com cinto de cartuchos e tudo, espoletas de rolinho de papel ou de plástico e metralhadoras. Havia uma cultura mais forte da arma, coisa que, ao meu ver, deve diminuir até estarmos livres dela. Armas no passado, menos no presente e nada num utópico futuro.

Mas vamos às guerrinhas. Davam-se na rua ou no terreno de algum dos beligerantes, ao redor da casa e quintais, não raro invadindo terrenos de vizinhos os quais normalmente consentiam (na nossa cabeça, pois tenho certeza que a vontade era correr com os moleques que pisavam nas verduras ou deixavam portões abertos para animais e crianças saírem para a rua). O cenário preferido era a construção da casa de meus pais, a qual levou anos para ficar pronta. Eram dois pisos ocupando de um lado ao outro o terreno; sete quartos, seis banheiros. Era muito canto para um soldado se esconder numa emboscada ao inimigo.

Um dia, em que já não éramos tão crianças (pensando no primeiro beijo, mas sem coragem de deixar para trás e para sempre a infância) nos juntamos o Roni do Tito, o Calinho, o Kate, o Marcelo do Vilsinho e outros que não lembro no momento, mas que dava dois times com quatro para cada lado, para uma guerrinha diferente. Decidimos que o cenário era não só a rua Luiz Pizzolatti, mas a quadra toda. Como já foi dito, éramos maiorzinhos e a brincadeira podia ser mais séria, com regras mais sofisticadas. Tinha que ser honesto se atingido, nada de dizer “errou!”, “foi de raspão!” ou “eu já tava protegido!” (paint ball resolveria isso, mas ainda não havia chegado por aquelas bandas). Havia também a possibilidade de capturar reféns e negociar sua libertação, dando mais realismo à contenda.

Bem, recordo da primeira rodada. Kate, Marcelo e sei lá mais quem numa equipe; Roni, Calinho e eu noutra. Os primeiros ficaram atrás de um monte de terra ao lado do clube Santista, na esquina, no início da subida do morro do colégio. Nós ficamos junto à goiabeira da dona Maurília, no portão da entrada da garagem. Cada vez que alguém notava uma parte do corpo de algum inimigo à mostra, gritava “pá-pá-pá, fulano tá morto”, ao que este respondia “ah, nessa distância? duvido”. De fato, provavelmente nem com espalhadeira a gente acertaria, mas a questão era a seguinte: havia a chance de alguém estar com dor de barriga ou que tivesse deveres de aula, então concordava com o inimigo, aceitando a morte e ia para casa. Mas era raro de acontecer. Bem, para não ficarmos só no “pá-pá-pá” e “não valeu”, alguém tinha de ser arriscar. O Roni saiu de trás da goiabeira e foi sorrateiramente até próximo uns trinta metros da trincheira inimiga. Foi rendido e, assim, inauguramos a novidade do refém. O Roni pôs as mãos atrás da cabeça, caminhou até a trincheira – o monte de terra – e lá ficou, sob a mira do Marcelo. Iniciaram-se as negociações. O Calinho, de arma de madeira em punho, foi conversando com os inimigos até chegar onde o Roni fora capturado. O Kate concordou em negociar o Roni e saiu de trás do monte de terra, mas esqueceram de largar as armas para conversarem. O Kate deu uns passos e o Calinho descarregou a metralhadora de pau contra ele, que não acreditou e disse (morto, vejam só): “Ô, eu to indo negociar o Roni.” E o Calinho (falando com o morto): “E daí? Pá-pá-pá”, confirmando o ato covarde. “É?”, pergunto o Kate. “Aham.”, respondeu o Calinho. “Mata o Rooooneeee!”, ordenou (o morto). O Roni arregalou os olhos para o Marcelo, ao que seu algoz gritou somente “Pinhóu” (que arma faz este barulho?). A cena foi tão hilária que quase não conseguimos prosseguir o teatro, mas prosseguimos.

No dois-ou-um, formamos novos grupos. Ficamos o Calinho, o Marcelo e eu na goiabeira, enquanto o Kate, o Roni e outro que não lembro ficaram no monte de terra. Nossa estratégia seria alguém dar a volta na quadra para surpreendê-los por trás, matando-os de uma só vez. Era inteligente, mas cansativo. Então lembrei que era comum carretas passarem à velocidade bem reduzida. Sugeri aos dois parceiros que aguardássemos uma delas passar e, então, um de nós correria atrás da carreta até chegar no QG inimigo, descarregar as inesgotáveis balas imaginárias nos infelizes e vencer a guerra. A ideia foi bem-vinda. Perguntei quem gostaria de fazer as honras e o Calinho, mais que animado, se ofereceu para a missão e foi aceito. Não demorou a apontar uma carreta na curva lá atrás, vindo da João Feldmann. Ela abriu bem para conseguir entrar na Luiz Pizzolatti sem subir muito no meio-fio. O Calinho se preparou e, assim que o reboque passou por nós, ele partiu atrás, desengonçado porque corria com a arma de madeira. Ficamos o Marcelo e eu abaixados observando a execução do plano, torcendo de verdade para dar certo. Só que a carreta deu uma embalada para vencer o morro à frente e se distanciou um pouco. Daí o inesperado: vimos o Kate sair correndo de trás da terra, atravessando a rua antes da carreta e se escondendo atrás de um poste, sem imaginar que o Calinho vinha atrás do caminhão. Era para gritarmos para o Calinho, mas não dava, porque estávamos nos mijando de rir da situação! De repente o Kate vê o Calinho passando e mete tiro. Vimos o Calinho parando decepcionado, ofegante. Os outros dois saindo de trás da terra, afinados de rir. E o resto da tarde foi dedicado a lembrar das bizarras execuções do Calinho e do Roni. Acho que foi a última vez que tivemos uma brincadeira do tipo e nunca mais houve guerra.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

2 comentários em “As Guerras

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