Como Ratos

Mais uma crônica sobre os bons tempos da infância. Mais um texto já de alguns anos e que não passou por revisão. Boa leitura!

Sinto-me na obrigação de fazer um esclarecimento inicial: não sou apreciador gastronômico de bizarrices, o título refere-se ao estado em que um primo de apelido Téio e eu nos encontramos certa vez.

Foi assim, uma das coisas que eu mais gostava de fazer nos fins-de-semana era ir ao Rio Maior com a família. Lá a natureza ainda reinava como em qualquer campo ou roça. Ruídos de carros somente dos que passavam à rodovia, predominavam os cantos dos passarinhos, mugidos do gado de leite e carga e o delicioso balançar das árvores ao sabor do vento.

Quando a gente lá chegava, cada um se aninhava na casa do primo ou tio que tinha mais afinidade. Minha irmã Mity ficava na casa das primas Faba e Bandi. Minha irmã mais nova Nanda, sei lá onde predominava, acho que na casa da prima Duia e seu irmão Duio, que eram mais ou menos da idade dela – e, claro, a Duia era menina. Eu, ficava na casa dos primos Marco (mais velho) e Téio, uns dois anos mais velho que eu.

É, a gente adorava ir pra lá, só que, pra mim, tinha um probleminha. Nem sempre Marco e Téio (especialmente este) tinham vontade de sair de casa no domingo para alguma brincadeira mais recreativa, algum jogo de futebol, jogo de taco, guerra de bosta, pé-na-bola. Preferiam ficar vendo programa do Faustão ou Silvio Santos numa velha tevê preto-e-branco. E era difícil convencê-los a sair daquele estado paralítico na cozinha em frente à telinha. Às vezes conseguia fazer o Téio ir comigo intimar outros a inventar alguma brincadeira, noutras tinha de me render e sacrificar meu domingo vendo tevê com eles, na maior frustração. Acho que é por isso que, hoje em dia, detesto, simplesmente abomino qualquer programa de auditório.

Eu não entendia como eles gostavam de ficar parados em vez de se divertir na rua. Levei tempo até perceber que a vida deles era diferente da minha, na cidade, onde tudo está à mão. No Rio Maior eles trabalhavam na roça e faziam tudo às pressas para dar tempo de tomar ônibus até a escola da comunidade. Pão era feito em casa, assim como o café era colhido e torrado lá mesmo, feijão cansemos de brincar nos montes que estavam secando no paiol. Compravam pouco estes itens que eu lembre. E os primos amavam os pães de venda, enquanto eu me declarava mesmo aos pães de forma da colônia que as tias faziam. É que eu enjoara dos pães de venda e eles dos pães coloniais. Eu enjoara da tevê e da cidade, eles das brincadeiras na roça.

Uma brincadeira que só o Téio e eu fazíamos era caçar ratos. Paióis e galinheiros eram morada certa dos roedores, e a gente invadia seja de quem quer que fosse, tios ou nono, para aniquilar os bichinhos. Tínhamos até pseudônimos: Mazzucco Mar e Mazzucco Mor. Íamos cotucando as longarinas do telhado onde havia suspeita de ninho de ratos e narrando nossos passos, tal como nos documentários. Claro que a gente dava risada. Os nomes eram ridículos, imagine: “Mazzucco Mor acredita ter achado um ninho, será que há algum rato?” “Mazzucco Mar usa uma arma terrível.” “Este plano deve dar certo, heim, Mazzucco Mar!” “Mazzucco Mor acaba de botar a mão na merda da galinha.”

Numa destas ocasiões, partimos para uma caçada aos ratos. Para mim era a melhor brincadeira que existia. Imagine, se divertir, ver sangue e, de quebra, desratizar os domínios do proprietário. Engano meu, pois os donos não apreciavam nem um pouco a gente entrar sem permissão nos paióis e galinheiros e, ainda por cima, tirar telhas do lugar e deixar tudo bagunçado.

O lugar eleito foi o paiol do nono, área inédita para os caçadores Mazzuco Mar e Mazzucco Mor. Sem sermos vistos, entramos no recinto e fechamos a porta com a tramela – haviam frestas enormes, era só pôr os dedos pra fora e girar a tranca.

No paiol reviramos tudo, tiramos coisas do lugar, cavouquemos no monte de espigas de milho que tinha um pó branco (veneno, cheiro de Neocid, e a gente nem aí), mudamos de lugar coisas que deviam estar a milênios intocados, e nada dos orelhudos aparecerem para levar umas pisadas. Tínhamos certeza que os bichos estavam no paiol, mas onde? Daí ocorreu a ideia. O único lugar não investigado era o telhado. As longarinas estavam com bastante palha, indício de ninhos de rato. O problema era que aquele paiol em particular tinha o telhado bastante alto, uns três metros. A gente era pré-adolescente, dando a impressão de ser ainda mais alto. A solução era que um de nós subisse no armário vermelho de madeira para alcançar o teto. Por que eu tive de fazer isso? Porque eu morava em Orleans, e ninguém ia atrás de mim caso desse merda, mas o Téio morava a uma centena de metros do nono.

Bem, subi no armário e comecei a cutucar os ninhos. Víamos um ou outro ratão, pouco menores que um gato adulto, correr pelas madeiras e se abrigar em outro ninho. E isso não ia mudar muito, afinal, como matar os ratos naquela altura? Com espingarda? Não pensamos nisso naquele momento, a ideia viria mais tarde naturalmente, após o baile que os roedores aplicariam sem maiores esforços. Só que não chegamos até este momento, pois algo nunca antes acontecido estava para ocorrer. Pelas frestas (já disse que eram largas?) vimos o nono vindo para o paiol, já pisando a madeira da rampa de acesso, vagarosamente por conta da idade, vestindo chapéu de palha. Idade bem avançada, mas tinha envergadura de uns metro e oitenta, magro, o patriarca. Ademais, sabia fazer cara de brabo e ninguém queria conhecer a severidade dele, tão mencionada pelos filhos (nossos pais) nos tempos de outrora.

Lá vinha o nono. A gente parou tudo na hora, nos olhamos e fizemos um “Ihhh…”, algo como “Fudeu!” nos dias de hoje. Estávamos ralados mesmo, pois o paiol era amplo, mas sem esconderijos, ainda mais que o idoso já colocara a mão na tramela da porta. O Téio tava quase na frente da porta que começava a abrir, estava frito. E eu, que estava igualmente de frente para a porta, mas abaixado de quatro patas, em cima do armário? Me abaixei ainda mais na esperança perdida de não ser visto. O Téio? Deu uns passos na ponta dos pés em direção à porta que se abria lentamente, de modo que o nono a abriu escondendo o Téio atrás dela. A cena foi hilária e eu quase não aguentei, larguei uns ruídos meio com o nariz, meio com a boca, quando se quer rir muito, mas não pode. O Téio, ao me ouvir, começou a se comportar igualzinho. Era um barulhando atrás da porta, outro de cima do armário.

O nono começou a reorganizar algumas coisas bem devagarinho, e não percebera nossa presença até então. A porta começou a se mover, descobrindo completamente meu primo, fazendo-nos literalmente grunhir assim que nos vimos naquela situação. Téio saiu da posição na ponta dos pés em direção à caixa de milho que tinha uma parede baixa onde, talvez, o nono não iria. Só que mesmo na ponta dos pés, fazia um barulho tremendo, já que no chão tinha palha de milho, mas o nono parece que não ouviu. O armário era pouco mais alto que o nono e ele estava a não mais que um metro de mim, e parecia que não me via. Os grunhidos de Mazzucco Mar e Mazzucco Mor continuavam, só que agora com alguns assobios de quando a gente se afina, de boca aberta, sem sair risada, só assobio.

Eu tinha certeza que o nono ia me ver a qualquer momento e dar bronca das boas, assim pensava em me entregar logo e minimizar a tragédia. “Nono, tá cheio de rato!”, pensava em dizer, mas faltava coragem. E cada vez que o olhar dele varria na minha direção eu pensava: “Ai, é agora.” mas, nada. Começava a achar que o nono estava de brincadeira com a gente. E os grunhidos continuavam, cada vez mais evidentes, acho que só o nono não ouvia ou fingia não ouvir.

“Que que esses fdp vêm fazer aqui?”, disse (não pensou) para si mesmo, com o bom e carregado sotaque regional. Claro, isso foi mais motivo para aumentar consideravelmente nossos decibéis.

O nono continuou andando e ajeitando algo aqui e ali. De repente o chapéu raspa num dos paus de pendurar salame, descolando-o. O nono então se virou para ver no que tinha esbarrado, só que ficou cara-a-cara comigo, assim, olhos nos olhos. Eu arregalado, paralisado sem respirar; o nono com os olhos em mim, mas com a cabeça no pau de salame, imaginei, pois ele não me viu de novo, e pela última vez, naquela situação. Juro que não acreditei que ele sairia em seguida do paiol sem ter visto ou ouvido a gente. Mas assim aconteceu. Ele saiu pela porta e a trancou. Esperamos ele se afastar do paiol – as frestas avantajadas davam suporte novamente – para, enfim, soltarmos as gargalhadas acumuladas e rever tudo o que se passou. Dizíamos que o nono só podia estar pregando peça na gente, que depois iria cobrar tudinho. Mas não. Passou o tempo, e nada.

Só depois de adulto, numa das vezes em que fui ao Rio Maior conversar e receber a prazerosa carga de informação e histórias do nono e da nona, como meu pai costumava fazer, que resolvi tirar a prova. Contei sobre aquele dia. À medida que contava, o nono ia rindo e se interessando, e rindo mais. Por fim perguntei se, de fato, não tinha visto nada, ao que ele respondeu que não, sequer lembrava do tal dia.

Hoje ele vive na nossa memória, e fico feliz por não ter deixado passar a oportunidade de tirar aquela dúvida, se ele não tinha visto a gente ou se vira e resolvera nos torturar por alguns minutos, fingindo que não viu.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

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