A Explosão do Fogão

A gente era “pitinin”, como meu pai dizia, a Nanda com uns onze, eu uns treze. Devia ser inverno, que eu recorde, porque era agradável ficar perto de qualquer foco de chamas.

Era uma ocasião em que a Nanda brincava sempre com amiguinhos mais novos, daí ela era a mandachuva, tal como gostava de ser. Tinha mais alguém com ela, mas não sei dizer se era Manuela, Mariane ou Karine. Elas estavam agachadas ou sentadas em frente à garagem, na calçada que tínhamos tomado posse, já que a casa de madeira havia sido puxada para frente para dar lugar a construção da casa nova. O carro ficava com a traseira quase na estrada, e numa das duas trilhas de laje a Nanda juntou três tijolos, pôs uma lasca de tampa de caixa d’água em cima, ateou fogo debaixo e fez um fogãozinho à lenha. Furtou uma panelinha mais velha da mãe, colocou água e vagens, sementes e folhas de toda sorte encontradas no jardim da casa e na rua. Era uma sopa de mentirinha, mas o cheiro tava mais para poção diabólica.

Se por um lado a Nanda e as amiguinhas estavam na onda de brincar de casinha, fazendo comidas etc, os guris estavam explodindo bombinhas, o que era muito divertido. Inicialmente usávamos bombinhas finas, não mais grossa que um palito de fósforos. Aquilo nos satisfez até que um marmanjo afirmou que estourava na mão e a gente duvidou. Pois ele acendeu, segurou entre o polegar eu indicador, levantou o braço e, enquanto a gente se afastava não acreditando naquilo, a bombinha estourou vergonhosamente, com pouco fogo e fumaça. Pra quê isso? Caímos na real, estávamos brincando com brinquedo de bebê. Não demorou nada para estarmos portando rojões do calibre de um polegar de adulto, e sem autorização da Polícia Federal.

Aquilo sim era bombinha. Teve latas que sumiram, ninguém as achou mais, devem ter entrado em órbita. Um velho penico de plástico desapareceu, deixando como vestígios somente alguns caquinhos bem longe um dos outros. Um parênteses sobre as latas: meu pai sempre dizia para não pormos rojões debaixo de latas pois o fundo poderia saltar e contar o que encontrasse pela frente, tal como um menino que ele conhecera e que teve a bochecha aberta numa dessas aventuras.

Mas a gente se cuidava, fazia a instalação dos explosivos e até acendia o pavio com um graveto – assim a gente ganhava uns vinte centímetros na corrida, mas na nossa cabeça estava tudo bem, muito seguro.

Era num dia de semana à tarde, porque se fosse sábado ou domingo a gente não estaria brincando daquele jeito, estaríamos fazendo alguma coisa que se faz no sábado – ir à catequese, receber alguma visita, alugar fita de vídeo para assistir algum filme – ou no domingo – ir ao Rio Maior… é, só isso. A gente brincava pra valer mesmo era em dia de semana, era mais divertido que fazer os deveres de aula. Já cansado de brincar com jogos – ou sem estoque para continuar a beligerância – sentei perto do fogãozinho para curtir o calor. Os demais (lembro do Dódi e do Marcelo, mas tinha mais) continuavam os bombardeios. Às vezes eles vinham mais perto da gente trocar umas palavras, se afastavam, zoavam e brincavam, sempre com alguma corrida seguida de explosão. A coisa se acalmou um pouco, todos estavam meio sossegados, meios espalhados. Daí fui surpreendido por uma explosão no fogão da Nanda. Me pus meio de lado numa defensiva e vi os três tijolos deitados com as brasas intactas no mesmo lugar. Alguns ciscos caiam do céu e, de repente, a panela pousa em cima do que era o fogãozinho. Por sorte ninguém se machucou. A água quente foi prum lado desabitado e a chapa – digo, a lasca de fibrocimento – reduzira-se a mil pedaços pequenos.

Imediatamente levantei e fui gritando “quem colocou bombinha aqui”. A gurizada estava atônita com o ocorrido, talvez não esperassem tamanha destruição. Quem botou a bombinha, perguntei novamente. Começaram então com “não fui eu”, “nem eu” e “deve ter sido o fulano”. Fui ficando mais bravo e já tava ameaçando, mas não tinha provas (e, convenhamos, ninguém dava a mínima pra minha cólera, nem os pequenos). O gênio da Nanda e o meu nunca foram lá muito simpáticos um com o outro, mas quando um de nós estava em apuros, o outro ficava possesso.

Continuei a investigar sem êxito, óbvio. Ninguém queria entregar ninguém a princípio. Depois eles se apontavam meio rindo e, em voz alta, se acusavam. Chegavam a apresentar provas do que estavam dizendo, que o outro tinha só uma bombinha no bolso, foi falar comigo e se afastou, logo depois a tragédia; e então não tinha mais bombinha nenhuma. Estavam zombando de mim. Nada podia fazer, só uma cara de mau pra eles verem que aquilo não ia ficar assim (como disse, eles não estavam nem ai).

O tempo foi passando e sempre que recordava da explosão do fogão da Nanda, me perguntava por que alguém faria uma brincadeira daquelas, que poderia ter machucado seriamente. Não aceitava uma brincadeira tão besta por parte dos amiguinhos, que também eram vizinhos. A gente podia ter se cortado, se queimado com o fogo ou com a água quente. Até que um dia soube de um fato interessante: não recordo se o pai comentou, ou vi na TV, ou contaram na delegacia onde trabalhei (já tinha uns vinte e três anos de idade), sobre a possibilidade de o fibrocimento explodir se submetido a altas temperaturas. Coisa do tipo, num incêndio de uma construção com telha brasilit, haver várias pequenas explosões por causa das telhas, tal como o bambu na fogueira de São João. Soube que o fibrocimento pode ter umidade no interior a qual vira vapor sob pressão no calor intenso, vindo a explodir a peça igualzinho ao milho de pipoca.

Assim que soube do fato, achei interessante somente, não liguei as coisas na hora. Eu só tinha vontade de encontrar algum pedaço de telha para fazer a experiência. Um dia estava em Orleans, visitando meus pais e a namorada quando vi pedaços de uma velha caixa d’água de fibrocimento e imediatamente vi a oportunidade de fazer a experiência para tirar a prova. Não precisou. Os pedaços de chapa da caixa d’água fizeram lembrar que a Nanda um dia fizera um fogãozinho utilizando inteligentemente uma lasca (talvez desta mesma caixa d’água) como chapa, e que algum moleque o explodiu, pondo todos nós em risco. Num estalo o mistério de tantos anos se resolvera. Não havia nenhum meliante autor do atentado, ninguém pusera bombinha alguma no fogareiro – teria de ser mágico, porque a gente tava perto e ligado. A chapa do fogão explodira arremessando a panela uns cinco metros pra cima. De fato, as brasas onde supostamente ocorrera a explosão por rojão estavam muito juntas e não fora tão grande explosão. Com certeza, se tivesse sido um rojão o estrago teria sido bem maior.

Daí fico imaginando a quantos tipos de risco as crianças são submetidas, porque nossos pais sabiam da brincadeira, mas só especialistas poderiam advertir do perigo da explosão. Bicicletas sem freio, fundas, bombinhas, fogões de brasilit… é, a gente se safou muito bem na nossa infância.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

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