Carona

O texto abaixo já tem uns anos que escrevi. Fosse hoje, mudaria bastante coisa, mas decidi manter a versão original. Tenho planos de refazê-lo junto com outros tantos e publicá-los em livro.

O Xirita era uma figura quando criança e parece que, atualmente, continua sendo. Era engraçado, soltava boas piadas, mas na maioria das vezes era alvo da cruel gozação minha e de meus comparsas (é o que hoje chama-se bullying). Devo-lhe desculpas por isso, de coração.

Quando nosso bando de hienas não estava reunido, éramos pacatos, amistosos com quem estivesse por perto. Nestes momentos o Xirita se revelava um amigo, ótima companhia, disposto a cultivar a amizade mesmo tendo passado momentos desagradáveis comigo e minha quadrilha.

Estes momentos eram comuns nos ensaios da banda ou quando nos reuníamos para brincar no bairro onde ele morava. O cara dava atenção pra gente, tratava como melhores amigos.

Certa vez, peguei em casa minha bicicleta Barra Circular da Monark e saí, fui ao centro. Hoje não recordo o que tinha ido fazer, mas estava descendo a Aristiliano Ramos e, mais ou menos em frente ao antigo Besc, o Xirita (na verdade Sandro, herdou do pai o apelido), fez com que eu parasse e pediu “uma carona até a banda.”

Naquele tempo eu não fazia parte da banda, já fizera. A banda começava e terminava toda hora, e no momento eu sequer sabia que tinha sido reiniciada pela enézima vez.

A barra circular tinha garupeira e, como estávamos em descida e após seria tudo plano até chegar na sede da banda (onde também funcionava o Clube dos Idosos, atrás da extinta Lojas Zomer), concordei em levá-lo. Todavia, naqueles dias minha magrela portava um defeitinho. O parafuso que prendia a garupeira ao quadro, logo abaixo do selim, havia se soltado, de modo que a peça estava presa só na parte de baixo, na base. Juro que não foi por maldade, eu realmente não lembrei do problema, até porque quando dava carona enquanto dando voltas na rua de casa, pedia ao garupa que se sentasse bem à frente, assim o próprio peso da pessoa firmava a garupeira. A gurizada já estava acostumada e eu não alertava mais.

Bem, o Xirita embarcou e eu não vi como ele tinha se acomodado. Acontece que ele, em vez de se sentar mais à frente – no meio já seria suficiente – ele acomodou a mala com o trombone junto ao selim, e ficou ele bem na ponta da garupeira. Estranho foi que a garupeira não “desarmou” para trás como deveria, na hora. Ele disse que estava pronto e eu tratei de guiar a bicicleta.

Cortei caminho pelo pátio do Posto Jardim, que liga as duas ruas, como todo “bicicletero” fazia. Assim que senti o solavanco provocado pela diferença de nível entre o pátio e a rua, senti também uma certa leveza repentina no guiar da bicicleta. Ouvi também um barulho como se muitas caixas de papelão estivessem caindo. Já ia passando por entre as bombas de combustível quando o Xirita simplesmente deslizou com a garupeira para trás, se estatelando no chão. A imagem é nítida até hoje: vejo-o rolando no chão, com calças de moletom (tipo um camurça verde, horroroso), a mala do trombone rolando, abrindo-se e liberando o instrumento em duas partes para ganhar alguns arranhões, tal como o Xirita. Ele próprio se levantou rindo e dando gritos de gozação, morto de vergonha, claro.

Assim que recolheu o trombone, chegou perto e mostrou o pulso, com a pele toda esfolada pelo cebolão que usava.

Seguimos para a banda. Não me recordo se ele foi embarcado novamente (louco pra isso ele era) ou se foi andando e eu acompanhando-o de Barra. Ele deve lembrar. Qualquer dia desses, quando eu estiver por Orleans, vou perguntar e, claro, voltar a rir com a história.

Publicado por Morrisson

Escritor e bancário.

4 comentários em “Carona

  1. Fui testemunha ocular dessa catapulta da marca Monark, modelo Barra Circular. Tiveram outros problemas com essa bike, ou era possuída ou era um repositório de sabotagens kkkk.

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